PSICOLOGIA III

3.4. As potências da alma: Uma vez relatadas as potências gerais da alma racional, analisemos as potências intelectivas. São cinco as potências da alma intelectiva, pelas quais a alma humana opera e atualiza as suas perfeições: a potência vegetativa, a potência sensitiva, a potência apetitiva, a potência locomotiva e a potência intelectiva [STh I,q78,a1,c]. Desta cinco tratemos das três fundamentais: a vegetativa, a sensitiva e a intelectiva, já que a locomotiva inclui-se na sensitiva e intelectiva e a apetitiva na intelectiva.

(a) Potência vegetativa: A potência vegetativa afirma-se propriamente das espécies vegetais [STh.I,q78,proêmio]. Mas diz-se no homem ser uma função, uma capacidade vegetativa. Por que ela existe no homem? Toda potência superior contém em si mesma a potência inferior, que dela emana. Já vimos que a potência superior é a intelectiva. Ora, a intelectiva que é potência própria do homem, possui como perfeição sua a potência vegetativa. Por isso, a potência vegetativa é uma potência natural que pertence ao vegetal e ao animal [STh.III,q33,a1,obj4;I,q78,a2,c], na qual se inclui a espécie humana. Segue-se do anterior que se afirma a potência vegetativa de todo corpo animado que possui, como partes vegetativas, a nutrição, o crescimento e a geração [STh I,q78,a2,c].

(b) Potência sensitiva: a potência sensitiva, é uma potência passiva cuja natureza é ser modificada por um objeto sensível exterior; como vimos acima, a potência sensitiva, embora seja potência da alma racional, ela tem por sujeito o composto de corpo e alma racional e, para tanto, exige, para a sua operação, órgãos dos sentidos externos, pelos quais opere, pois tais órgãos existem em função da potência e não o contrário; por tudo isso, se fazem necessários - os cinco sentidos externos - ou seja, a visão, a audição, o tato, o olfato e a gustação [STh I,q78,a3,c] e os seus respectivos órgãos dos sentidos externos: os olhos, o ouvido, a pele, o nariz e a boca, seus respectivos sensíveis próprios: luz -cor-, som -agudo-, superfície -áspera-, odor -suave- e sabor -doce-. Estes órgãos dos sentidos externos produzem, pelos cinco sentidos, algo que a potência sensitiva percebe externamente pelos próprios órgãos e, também, internamente, pelos sentidos internos. O homem deve, portanto, em sua potência sensitiva, não só receber as espécies das coisas sensíveis, no momento em que os órgãos dos senstido são modificados por elas, mas ainda imaginá-las, percebê-las, retê-las e conservá-las. Para tanto, para perceber e guardá-las internamente, a potência sensitiva dispõe também de - quatro sentidos internos - o sentido comum, pelo qual recebe a forma sensível das coisas sensíveis, a imaginação que retêm estas formas sensíveis, a cogitativa, que permite associá-las e a memória sensitiva, para conservá-las [STh I,q78,a4,c].


3.5. Potência intelectiva: 

(a) o intelecto: a palavra intelecto provém de intus legere, 'ler por dentro'; trata-se de uma potência cognitiva da alma humana, por meio da qual a alma conhece algo de si, algo do que lhe rodeia e algo do que lhe transcende. O intelecto é a mais nobre potência da alma, mas não a própria natureza da alma [STh I,q79,a1,c]. Difere dos sentidos [In I Met.lec2,n45; In II Met.lec1,n282-286]; seu objeto é a verdade [In VI Met.lec4,n.1230-1240]; possui duas operações, uma indivisível e outra de composição [In VI Met.lec4,n.1232]; está ordenado ao inteligível [In XII Met.lec8,n.2540]; humano é imaterial [In IX Met.lec11,n2624]; divino inteligi-se a si mesmo [In XII Met.lec11,n2611-2626]. 

(b) objeto próprio do intelecto: o ente é o que primeiro considera e conhece o intelecto [In I Met. lec.2, n.46]; o intelecto ordena-se ou orienta-se primeira e naturalmente à consideração do ente. O ente diz-se do que tem ser. Portanto, tudo que tem ser é ente e a isso odena-se o intelecto. É o sujeito da Metafísica [In IV Met. lec.1, n.529-531]. Não é gênero, pois não possui diferença [In I Met. lec.9, n.139]. É o que tem ser [In XII Met. lec.1, n.2419]. É tomado do ato de ser [In IV Met. lec.2, n.556-558]. Se diz da substância [In III Met. lec.12, n.488-493]. É considerado de quatro modos: do acidente, da verdade da proposição, dos predicamentos e se divide em ato e potência [In VI Met. lec.2, n.1171]. Pode ser essencial, acidental, real e de razão, dos predicamentos e do ato e da potência [In V Met. lec.9, n.885]. Ente por acidente não é propriamente ser [In XI Met. lec.8, n.2272]. Não há ciência acerca do ente por acidente [In VI Met. lec.2, n.1172-1176]. Ente de razão é próprio da Lógica [In IV Met. lec.4, n.574]. É o que primeiro capta o intelecto [In I Met. lec.2, n.46]. (c) ação própria do intelecto: conhecer a realidade e dela apreender a verdade; esta é a ação própria do intelecto; a verdade é o que visa o intelecto, quando ele considera o ente; por isso, a verdade é a adequação do intelecto com a coisa, que é um ente. O conhecimento da verdade é por dupla via: por resolução e por composição [In II Met. lect. 1, n.278]; o seu conhecimento implica dupla dificuldade: uma da parte das coisas e outra da parte de nosso intelecto [In II Met. lect. 1, n.279-286]; para o seu conhecimento os homens se ajudam duplamente: direta e indiretamente [In II Met.lect. 1, n.287-288; lect. 5, n.334]; é conveniente buscá-la [In II Met. lect. 5, n.335-336]; dos primeiros princípios é previamente determinada, e resolvem muitas dificuldades em sua aplicação [In III Met. lect. 1, n.338]; o verdadeiro e o falso nas coisas não são senão afirmar e negar [In IX Met. lect. 11, n.1896-1901; In VI, lect. 4, n.1230-1240]; está mais no ato que na potência e mais nas simples que nas compostas [In IX Met. lect. 11, n.1910-1913].

(d) o processo de conhecimento pelo intelecto: a abstração é o processo próprio do modo como o intelecto conhece o ente; o intelecto não conhece as coisas nele mesmo, senão, pela abstração, depois da recepção das formas sensíveis impressas que, impregnadas de materialidade e individualidade, são depositadas, pela potência sensitiva, nos sentidos internos, cuja separação da materialidade e individualidade é feita pelo processo de abstração. Designa em Tomás uma atividade do intelecto pela qual considera a forma comum de um objeto separada (abstraída) de sua matéria e de suas condições individuais. Ela é tríplice: da matéria, dos inferiores e dos sentido [In I Met. lec. 10, n. 158; In III Met. lec. 7, n. 404-405; In VIII Met. lec. 1, n. 1683 e In XII Met. lec. 2, n. 2426]. A abstração da matéria é de quatro modos: matéria sensível, inteligível, comum e individual [In VI Met. lec. 1; In XI Met. lec. 7, n. 2259-2264]. (e) a passividade do intelecto: no primeiro momento do ato de conhecimento, o intelecto é passivo, porque recebe as informações que as potências sensitivas, tanto interna, quanto externa, fornecem para a alma; por isso, conhecer é padecer, enquanto isso significa receber aquilo para o qual estava em potência, sem que nada lhe fosse tirado [STh I,q79,a2,c].

(f) a atividade do intelecto: num segundo momento do ato de conhecer, o intelecto é agente, pois é necessário que o próprio intelecto, depois de recebidas as formas sensíveis, - as espécies impressas ou imagens - opere e as coloque em ato, pela abstração das formas inteligíveis, formando novas espécies - as espécies expressas ou conceitos -, na medida em que as conhece em ato e as torna semelhantes a ele e subsistentes nele [STh I,q79,a3,c]. O intelecto agente é potência intelectiva, ou seja, existe na alma humana como sua potência de entender as coisas em ato. Cada homem possui o seu intelecto individualmente; e este se assemelha, por natureza e perfeição, aos dos demais homens. Portanto, ele não existe separado da alma, embora não dependa de algum órgão do corpo para operar no que lhe é próprio [STh I,q79,a4,c], nem é único ou um só para todos os homens [STh I,q79,a5,c].

(g) partes da potência intelectiva: São seis as partes da potência intelectiva, com as quais o intelecto concebe um conceito verdadeiro, certo, abstrato, universal ou comum de muitos: a memória, a razão, a razão superior e inferior, a inteligência, o intelecto especulativo e prático, a sindérese, a consciência. - a memória - é parte da potência intelectiva da alma humana responsável por reter, conservar e recordar as imagens inteligíveis das coisas que são apreendidas [STh I,q79,a6,c]. Como tal, a memória não é uma outra potência distinta da potência intelectiva, senão que é da mesma potência intelectiva, pela qual além de ser potência passiva é conservativa [STh I,q79,a7,c]. - a razão - é parte da potência intelectiva da alma humana responsável pelo raciocinar, ou seja, ir de um objeto conhecido a outro; mas isso não difere a razão do intelecto, senão por causa das funções e não da natureza, pois uma coisa é o conhecer, que é simplesmente apreender a verdade inteligível, e outra coisa é raciocinar, como foi dito acima [STh I,q79,a8,c]. - a razão superior e a razão inferior - não são também duas potências distintas da potência intelectiva, senão que são dois nomes distintos dados a duas funções distintas de uma mesma natureza: a razão superior é a sabedoria, conhecimento conseqüente dos hábitos dos primeiros princípios indemonstráveis e a razão inferior é a ciência, conseqüente da aplicação dos hábitos dos primeiros princípios na demonstração das coisas temporais [STh I,q79,a9,c]. - a inteligência - é propriamente o ato mesmo do intelecto, que é o inteligir e não é uma outra potência, senão o ato da potência intelectiva [STh I,q79,a10,c]. - o intelecto especulativo e o prático - não são duas potências ademais da intelectiva, senão que são a consideração da mesma potência intelectiva, segundo os seus fins: especulativo, que não ordena o que apreende para a ação e o prático, que ordena para a ação aquilo que apreende [STh I,q79,a11,c]. - a sindérese - não é parte da potência intelectiva, nem mesmo é uma outra potência do intelecto, não é senão um hábito natural do intelecto que entende e concebe os princípios da ordem da ação que incita ao bem e condena o mal, na medida em que julga o que encontramos, mediante os primeiros princípios [STh I,q79,a12,c]. - a consciência - significa aquilo que implica a relação do conhecimento com alguma coisa, não é uma potência, mas um ato que atesta, obriga ou incita ou ainda acusa, reprova ou repreende, mas tudo isso resulta da aplicação de algum conhecimento ou ciência que temos do que fazemos, por isso, consciência é conhecimento com um outro. Neste sentido, a consciência forma parte da potência intelectiva, não como uma outra potência, senão como um ato pelo qual se aplica o conhecimento de alguma coisa [STh I,q79,a13,c].


3.6. A potência apetitiva: 

(a) definição: por potência apetitiva entende-se a inclinação natural da alma racional, ou seja, da forma humana para aquilo que lhe é natural, daí o apetite natural [STh I,q80,a1,c].

(b) tipos de potência apetitiva: há o apetite da potência sensitiva - o concupiscível e o irascível - e o apetite da potência intelectiva - a vontade -, que são potências diferentes por causa não só de seus atos e objetos, mas também por causa de seus respectivos sujeitos: a potência sensitiva, tanto o concupiscível, quanto o irascível, têm por sujeito o composto de alma racional e corpo, e a intelectiva, a vontade, tem por sujeito a alma. Ambas as potências distinguem-se entre si, tendo em comum o fato de serem potências passivas, cuja natureza é ser movida pelo objeto apreendido e visto que o objeto apreendido pelo intelecto é de gênero diverso do objeto apreendido pelo sentido, segue-se que o apetite intelectivo é uma potência distinta da potência do apetite sensitivo [STh I,q80,a2,c].

(c) apetite sensitivo: - a sensibilidade - não é apenas apetitiva, mas também cognoscitiva, de qualquer modo este é o nome do apetite sensitivo; a operação da potência apetitiva sensitiva se dá por um movimento sensível, causado pela apreensão sensível, como se atesta a seguir: a visão é a sensibilidade que resulta da relação que há entre o órgão sensorial - os olhos - e o objeto sensível, na apreensão de sua forma sensível [STh I,q81,a1,c/De ver. q25]. Outro nome é o de sensação, que em parte serve para nomear esta relação que acabamos de mostrar.

(d) tipos de apetites sensitivos: o apetite sensitivo se distingue em concupiscível e irascível, como duas potências distintas do apetite sensitivo; porque o apetite sensitivo é uma inclinação natural conseqüente da apreensão sensitiva, deve haver, portanto, na parte sensitiva, duas potências apetitivas: - o concupiscível - pela qual a alma humana é absolutamente inclinada, por conseqüência da apreensão sensitiva, a buscar o que lhe convém na ordem dos sentidos e a fugir do que pode prejudicar; - o irascível - pela qual a alma humana resiste às causas de corrupção e aos agentes contrários que põem obstáculo à aquisição do que convém [STh I,q81,a2,c]. É a razão que move e dirige o apetite sensitivo, portanto estas duas potências sensitivas, o apetite sensitivo concupiscível e o apetite sensitivo irascível, obedecem à razão, quanto ao mando e ato e submete-se à vontade, quanto à execução sendo, portanto, desta maneira que elas obedecem à razão [STh I,q81,a3,c].

(e) As paixões da alma: as paixões são o movimento do apetite sensitivo concupiscível e irascível, pela imaginação do bem ou do mal [Sum. Theo. I-II,q22,a3/De ver.q26,3/In II Eth. lec5,n292]. A alma humana, dita racional ou intelectiva, possui, como já dissemos, as faculdades: intelectiva que possui duas potências - a razão que se ordena à verdade e a vontade que, sendo apetite do intelecto, se ordena ao bem; sensitiva que possui duas potências - a concupiscível que move a alma para a busca de bens sensíveis e evita os males sensíveis e a irascível que move a alma para a busca de bens sensíveis difícieis de conseguir e a movimenta para evitar os males sensíveis difíceis de evitar e a vegetativa que move a alma humana na consecução e realização de suas funções inferiores correlatas ao corpo, como crescimento e diminuição. Pois bem, a potência sensitiva opera mediante os órgãos dos sentidos. Por meio dos sentidos produz-se a sensação nos órgãos dos sentidos [Sum. Theo. I-II,q10,a3/De malo,q3,a9-10/Comp. Theo.c128]. Tais sensações, quando recebidas na alma, - por isso são paixões da alma - produzem, pela imaginação que causam nos sentidos internos [além da imaginação, estes são os outros três sentidos internos: senso comum, memória e estimativa ou instintos], certos movimentos, que vão desde o desejo da posse de um bem sensível ou da aversão de um mal sensível. Daí as paixões, emoções ou sentimentos, serem estabelecidas em dois grupos: um concupiscível, caracterizado pelo movimento que se pauta na busca do bem sensível e na aversão ao mal sensível e outro irascível, que se caracteriza como um movimento mais violento, seja para conseguir um bem difícil de conseguir ou para evitar um mal difícil de evitar. Daí termos as seguintes paixões [Sum. Theo. I-II,q23,a4/q22,a2,ad3/In II Eth.lec5,n293/De ver.q26,a4]: Concupiscível: - acerca do bem: presente -amor/ausente-desejo/presente -alegria; & acerca do mal: presente -ódio/ausente - aversão/presente -tristeza; Irascível - acerca do bem difícil de conseguir-se: ausente -esperança & acerca do mal difícil de evitar-se: ausente -audácia/presente -ira. As paixões no homem afetam a sua inclinação a algum bem ou a aversão a algum mal. Por isso podem influenciar todo o rumo da formação do caráter e da instrução humana, pois elas podem determinar o voluntário, se o antecedem na inclinação ao bem ou na aversão ao mal. Se por um lado, a vontade ao aderir a determinação e a influência das paixões, isso pode aumentar o voluntário, por outro lado, esta mesma determinação pode diminuir a liberdade. De tal modo que sendo as paixões muito fortes, podem inclusive obscurecer ou obstaculizar o livre arbítrio da vontade [Sum. Theo. I-II,q77,a6/De ver.q26,a7/De malo,q3,a11]. Mas as paixões não são, em si mesmas, algo bom ou mal, mas naturais, pois são disposições que devem favorecer a inclinação do homem, por seus atos, ao bem de sua natureza e ao fim último a que se inclina, mediante os bens particulares que se lhe disponham a vida.

 (f) apetite intelectivo: - a vontade - é um apetite superior ao apetite sensitivo, não havendo nela nem concupiscível, nem irascível [STh I,q82,a5,c/De ver.q23]; é a inclinação natural do intelecto para algo; por isso, diz-se apetite do intelecto ou da razão; assim como se chama natural o que é segundo a inclinação da natureza, denomina-se voluntário o que é segundo a inclinação da vontade, que deseja alguma coisa de maneira necessária [STh I,q82,a1,c], embora não queira por necessidade tudo o que ela queira [STh I,q82,a2,c]. A vontade não é uma potência superior ao intelecto, pois o objeto próprio do intelecto é mais nobre e está nele mesmo, como quando se diz que a verdade e a falsidade a que consideram o intelecto estão na mente, enquanto o objeto próprio da vontade está na coisa, como quando se diz que o bem e o mal, a que tendem a vontade, estão nas coisas. Ora, o que é mais abstrato e nobre e reside no intelecto é superior em relação a tudo o que não seja abstrato e nele não esteja. Neste sentido, a vontade é inferior ao intelecto e, inclusive, depende dos princípios do intelecto para executar a sua ação [STh I,q82,a3,c], mas isso não significa que a vontade mesma não possa mover o intelecto, já que o objeto próprio da vontade, o bem, é causa eficiente de todas as potências da alma, inclusive, do intelecto, excetuando-se a potência vegetativa, que não é submetida ao nosso querer [STh I,q82,a4,c]. - o livre arbítrio - é uma potência [STh I,q83,a2,c/De ver.q24] apetitiva-cognoscitiva [STh I,q83,a3,c] que faculta o homem julgar os objetos do apetite sensitivo e do apetite intelectivo, segundo o que deles conhece, cujo julgamento não resulta de um instinto natural, senão de certa comparação da razão frente à orientação de certas apreensões sensíveis e inteligíveis; e é necessário que o homem julgue livremente, pois isso é uma exigência natural do ser racional [STh I,q83,a1,c]; o livre-arbítrio não é senão a própria potência apetitiva do intelecto, pois assim como o intelecto está para a razão, tratando-se da apreensão intelectiva, da mesma maneira, tratando-se do apetite intelectivo, a vontade está para o livre-arbítrio, que nada mais é do que a potência de escolha [STh I,q83,a4,c]. Assim, o intelecto tem por um lado a potência de raciocinar (razão), enquanto vai de um conhecimento a outro e, por outro lado, tem a potência de querer (vontade), enquanto isso é um simples desejo e tem a potência de eleger (liberdade), enquanto deseja alguma coisa por causa de outra que se quer conseguir [STh I,q83,a4,c]. 

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4. Principais conceitos: A seguir apresentaremos os conceitos do De anima considerados neste comentário e que requerem especial atenção em razão de sua relação a certas noções metafísicas. A numeração referida no léxico designa o parágrafo da Edição de M. Pirotta, Roma: Marietti,1948:

De anima
Livro I (A)
Livro I: Acerca da dignidade, utilidade e dificuldade desta ciência que versa sobre a alma. As antigas opiniões sobre a natureza da alma. Sobre a unidade da alma com relação às opiniões propostas. Em três capítulos.
Livro II (B)
Livro II: Acerca da definição da alma, de suas potências, ordem à natureza. A potência vegetativa. Acerca da pontência sensitiva. O núumero dos sentidos. De casa um dos sentidos. Sobre o sentido comum e próprio e suas distinçoes. Acerca do saber pelo sentir e sobre a imaginação. Em doze capítulos.
Livro III (G)
Livro III: Acerca do número dos sentidos, do senso comum, da imaginação e disto que o intelecto discerne. Sobre o intelecto. Sobre a potência motora. Acerca das faculdades comuns a todos os seres animados. Em treze capítulos.
Comentários aos III livros do De anima de Aristóteles
Livro I (A)
Livro I: Acerca da dignidade, utilidade e dificuldade desta ciência que versa sobre a alma. As antigas opiniões sobre a natureza da alma. Sobre a unidade da alma com relação às opiniões propostas. Lições I a XIV, n. 1-210.
Livro II (B)
Livro II: Acerca da definição da alma, de suas potências, ordem à natureza. A potência vegetativa. Acerca da pontência sensitiva. O núumero dos sentidos. De casa um dos sentidos. Sobre o sentido comum e próprio e suas distinçoes. Acerca do saber pelo sentir e sobre a imaginação. Lições I a XXIV, n. 211-563.
Livro III (G)
Livro III: Acerca do número dos sentidos, do senso comum, da imaginação e disto que o intelecto discerne. Sobre o intelecto. Sobre a potência motora. Acerca das faculdades comuns a todos os seres animados. Lições I a XVIII, n. 564-874.
Alimento É o objeto da alma sensitiva [n.310], objeto da nutrição [n.340,343].
Alteração
Não é de lugar, mas no lugar [n.76], sendo dupla: a mutação por privação e por hábito [n.369].
Alma
Sua ciência e estudo pertencem à Filosofia da Natureza [n.23]; é movida e movente [n.33]; é incorpórea e sutil [nn.68,175]; se existisse num lugar não seria a forma da totalidade do corpo de que é forma [n.77]; é causa do movimento e do repouso do animal [n.89]; o seu movimento é voluntário [n.90]; se move pelo intelecto e pela vontade [n.90]; sua felicidade está no inteligir [n.127]; move-se a si mesma [n.145]; suas operações podem ser de tríplice gênero de movimento: próprio, menos próprio e minimamente próprio [n.157]; a nurição é o movimento próprio da operação vegetativa [n.158]; é ato primeiro do corpo físico orgânico [nn.233,241,253,271,320]; se une imediatamente ao corpo, enquanto é sua forma [n.234]; é primeiro princípio dos viventes e dos que são vivos [nn.253,264,271,273]; vegetal é princípio do crescimento e decrescimento [nn.258,328]; das plantas é uma em ato e múltiplas em potência [n.264]; das plantas não exige grande diversidade nas partes [nn.264,268]; é de algum modo tudo [nn.284,787-788]; é tríplice: vegetativa, sensitiva e racional [n.285]; o ato da vegetativa é a geração [n.310]; é princípio e causa da vida do corpo [n.318]; é princípio, causa e forma do corpo animado [n.319-323]; vegetativa é geradora de outra semelhante segundo a espécie [n.347]; sensitiva não é ato sensível, mas só potência [n.354]; vegetativa existe em todos os viventes que geram e corrompem [n.848].
Apetite
Inteligível é a inclinação às formas inteligíveis [n.286]; sensível é a inclinação às formas sensíveis [n.286]; natural é a inclinação que segue as formas naturais [n.286].
Beatitude da alma está no inteligir [n.127].
Conhecimento
é a semelhança da coisa conhecida no sujeito que a conhece [n.43,377].
Ciência
é perfeição do homem [n.3]; é boa e honorável [n.3]; é especulativa ou prática [n.3]; é acerca dos universais [n.375].
Corpo
é movido pela alma [n.145]; possui levidade e gravidade [n.147]; são naturais ou artificiais [n.218]; natural é mais substância do que o artificial [n.218,220]; possui vida alguns outros não [n.219]; possui três dimensões [n.530].
Corrupção
não é propriamente movimento, mas mutação [n.75]; é dupla: substancial e acidental e absoluta e relativa [n.365].
Definição notifica a essência da coisa [n.10]; possui princípio e fim [n.121].
Deus é ato puro, por sua essência intelige e é inteligido [n.726].
Figura é determinação da magnitude [n.577].
Forma
convém a qualquer corpo e a ele existe unida [n.130]; não é toda a natureza de que é parte, pois a natureza é a do composto [n.213]; difere a substancial da acidental [n.224,236]; artificial são acidentais [n.235]; que pertence à essência é significada pela definição [n.236]; é o princípio da espécie [n.332]; substancial não é por si sensível, mas só compreendida pelo intelecto [n.420].
Geração
não é propriamente movimento, mas mutação [n.75]; é ato da alma vegetativa [n.310,312].
Imaginação
não é presente em todos os animais [n.302]; e não é do mesmo modo em todos os animais que a possuem [n.302]. Vid Fantasia: é o nome tomado da visão o aparição [n.632]; a fantasia do sentido se distingue da do intelecto [n.632]; fantasia se distingue da opinião [n.633-635].
Individuação
da natureza comum nas coisas corporais e materiais é a matéria corporal contida sob determinadas dimensões [n.377].
Intelecto
é forma subsistente [n.21]; não é movente, senão só metaforicamente [n.160]; sua operação não é mutação [n.160]; possui potência apetitiva e apreensiva [n.162]; ou razão é o que de mais nobre e divino há na natureza [n.188]; não tem parte ou órgão corpóreo [n.200,207,294,377,687]; considera os universais [n.284,377]; é perfeição intrínseca da operação da natureza que o possui [n.301]; é virtude e força imaterial que não possui algum órgão corporal [n.377,687-688]; conhece diretamente a natureza ou a quididde da coisa [n.713,716]; inteligi-se a si mesmo e as coisas mediante a espécie delas [n.724]; não intelige sem fantasmas [n.772,791,854]; é potência receptiva de todas as formas inteligíveis [n.790]; conhece o bem em razão de sua natureza universal [n. 804]; e razão não são partes ou potências distintas da alma [n. 812]; conhece o verdadeiro e o falso [n. 793]; difere em especulativo e prático em relação ao fim [n.820]; é agente quando coloca todos os inteligíveis em ato [n.728.,730,739]; agente é próprio o abstrair [n.734]; agente participa de algum modo do intelecto das substâncias separadas [n.739]; passivo é reduzido ao ato pelas espécies das coisas sensíveis [n.85]; passivo está em potência aos inteligíveis [n.308]; passivo não é separado do corpo como uma substância separada [n.689-699]; passivo tem por operação receber os inteligíveis [n.734].
Inteligir
é o próprio ser da alma [n.17]; é operação da alma sem unir-se ao corpo por meio de algum órgão [n.150,622].
Matéria
difere da forma [n.215]; é dupla: sensível e inteligível [n.707]; primeira é potência com respeito às formas [n.405]; primeira não tem alguma ação por sua essência [n.725].
Movimento
é ato imperfeito [n.82,160,356,766]; é de quatro espécies: local, aumento, diminuição e alteração [n.75]; difere da operação [n.82,160]; do intelecto é a própria operação [n.286]; se encontra propriamente nas operações vegetativas e snsitivas [n. 159,766].
Natureza
de algo está em toda e qualquer parte [n.116]; da espécie está toda em qualquer indivíduo [n.116]; da espécie individua-se pela matéria [n.706]; comum é intenção universal se encontrada no intelecto [n.380].
Operação
é ato perfeito e difere de movimento [n.86]; do intelecto não é mutação [n.160]; da alma vegetativa é operação do vivente segundo o ser material [n.285,288]; vegetativa ordena-se à conservação do ser [n.285,300]; da alma é ato da potência ativa ou passiva [n.305].
Paixão
é dupla: própria e menos própria ou comumente [n.365-366].
Potência
vegetativa, sensitiva e intelectiva são na alma conforme o modo de sua operação [n.199]; da alma são cinco: nutritiva, sensitiva, motora, segundo o local, apetitiva e intelectiva [n.201,297]; se distingue segundo a diversidade de operação [n.281,667].
Saber
não é o mesmo que sentir [n.629]; difere pelo inteligir [n.629,672].
Sensível
pode ser por acidente, por si, próprio e comum [n.383,579-580], em ato e em potência [n.596].
Sentido
é potência receptiva de todas as formas sensíveis [n.790]; é sobre o particular [n.284,375,377,716]; não sente sem os sensíveis exteriores [n.354]; diversifica segundo a diferença dos sensíveis [n.394. 582-583]; é conhecimento das coisas só corpóreas [n. 416]; se move pelos sensíveis assim como o intelecto o faz pelos inteligíveis [n.770]; não pode sentir sem o sensível [n.772]; comum tem órgão próprio [n.611]; próprio se distingue segundo os sensíveis contrários [n.613].
Sentir
se diz das coisas animadas [n.32]; não é da parte da alma, mas do corpo [n.150]; é alguma paixão e alteração [n.393]; é algum conhecimento [n.675]; não é saber [n.629] e nem inteligir [n.630-631].
Ser
sensível é o que há entre a matéria e as suas condições individuais [n.284]; é segundo a forma [n.286]; natural é fundamento do ser sensível e do inteligível [n.310].
Substância
é o que há de completo em seu ser e em sua natureza [n.213]; se divide em matéria, forma e composto [n.215,221,275]; composta é algo individual [n.215].
Universal
é pela abstração da matéria corpórea e de suas condições individuais [n.377]; pode ser duplo: em si mesmo e sob a intenção de universalidade [n.378]; só existem na alma [n.380].
Uno
é tríplo: contínuo, específico e absolutamente indivisível [n.752-759].
Verdade é ato de compor o que no real existe de modo único ou composto [n.748].

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