[Teologia da Perfeição Cristã] Princípios fundamentais da vida cristã


Teologia da Perfeição  Cristã

Por Royo Marín, O.P.

PRIMEIRA PARTE

Princípios fundamentais da vida cristã

CAPÍTULO I

O fim da vida cristã

A consideração do fim é o que primeiro se impõe no estudo de qualquer obra dinâmica. E sendo a vida cristã essencialmente dinâmica e propensa à perfeição – ao menos no nosso estado de peregrinos -, é preciso que antes de tudo saibamos para onde iremos, ou seja, qual é o fim que pretendemos alcançar. Por isso que Santo Tomás inicia a parte moral de seu sistema – o retorno do homem para DEUS – pela consideração do fim último [1].

À vida cristã se podem assinalar dois fins, ou, se desejar, um somente com duas modalidades distintas: um fim último ou absoluto e outro próximo ou relativo. O primeiro é a glória de DEUS; e o segundo, nossa própria santificação. Vamos examiná-los separadamente.

I. A glória de DEUS, fim último e absoluto da vida cristã


36. É clássica a definição da glória: clara notitia cum laude. Por sua própria definição, se expressa como algo extrínseco ao sujeito a quem afeta. Entretanto, em um sentido menos estrito, podemos distinguir em DEUS uma glória dupla: a intrínseca, que brota de sua própria vida íntima, e a extrínseca, proveniente das criaturas.

A glória intrínseca de DEUS é a que ELE busca em si mesmo no seio da TRINDADE Beatíssima. O PAI – por via de geração intelectual – concebe de si mesmo uma idéia perfeitíssima: é seu Divino FILHO, Seu VERBO, no que se reflete a Sua vida mesma, sua mesma beleza, sua mesma imensidade, sua mesma Eternidade, suas mesmas perfeições infinitas. E ao contemplar-Se mutuamente, se estabelece entre as Duas Divinas Pessoas – por via de procedência – uma corrente de indizível amor, torrente impetuosa de chamas que é o ESPÍRITO SANTO. Este conhecimento e amor de Si mesmo, este louvor eterno e incessante que DEUS se profusa a si mesmo no mistério incompreensível de sua vida íntima, constitui a glória intrínseca de DEUS, rigorosamente infinita e exaustiva, e à que as criaturas inteligentes e o universo inteiro nada, absolutamente, podem acrescentar. E é no mistério de Sua vida íntima onde DEUS encontra uma glória intrínseca absolutamente infinita.

DEUS é infinitamente feliz em Si mesmo, e, absolutamente, nada necessita das criaturas, que não podem aumentar-LHE sua felicidade íntima. Mas DEUS é Amor [2], e o amor dele é comunicativo. DEUS é o Bem infinito, e o bem tende de si mesmo a expandir-se: bonum est diffusivum sui, dizem os filósofos. Eis a razão da criação.

DEUS quis, com efeito, comunicar suas infinitas perfeições às criaturas, desejando com isso sua própria glória extrínseca.  A glorificação de DEUS pelas criaturas é, em definitivamente, a razão última e finalidade suprema da criação [3].



[1] S. Th. I-II, 1.
[2] S. Th. I 109 4, 16.
[3] De maneira belíssima, expressa Santo Tomás de que maneira com sua glória intrínseca e extrínseca se reúne em DEUS em grau muito perfeito a plenitude de todas as felicidades possíveis: «Quanto de desejável há em qualquer classe de felicidade, tudo preexiste de modo mais elevado na bem-aventurança divina. Por isso, no que se refere à felicidade comtemplativa, possui a contemplação contínua e certíssima de si mesmo e de todas as outras coisas, e enquanto a ativa, possui o governo de todo o universo. Da felicidade terrena, que segundo Boécio, consiste em prazeres, riquezas, poder, dignidade e fama, por deleite e gozo de si mesmo e de todas as outras coisas; a abundancia que a riqueza promete; por poderio, a onipotência; por dignidade, o governo de todos os seres, e por fama, a admiração de todas as criaturas» (1, 26,4).

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