Meditação sobre a criação do homem - São Francisco de Sales

[...]O meu intento, porém, é ser útil àqueles que se vêem obrigados a viver no meio do mundo e que não podem levar uma vida diversa da dos outros. Acontece muitas vezes que estas pessoas, sob o pretexto duma impossibilidade pretensa, nem sequer pensam em aspirar à devoção[...] trecho do livro de São Francisco de Sales, Filotéia ou Introdução à vida devota, ed. Vozes, 6ª edição, 1940, Petrópolis, RJ.

Venho expor-lhes grandes meios para a meditação, usando do livro Filotéia de São Francisco de Sales. Mas a tradução que vos apresento é da sexta edição da editora vozes do ano de 1940 traduzido por Frei João José P. de Castro, O. F. M.
Espero que gostem não mudarei nada da caligrafia do livro, pois minha ideia é manter no original, em breve estarei disponibilizando o livro todo para que muitos possam apreciá-lo.

9. Meditação sobre a criação do homem

PREPARAÇÃO

1. Pôe-te na presença de Deus.
2. Pede a Deus que te inspires.

CONSIDERAÇÃO

1. Considera que se passaram tantos e tantos anos que viesses ao mundo, sendo teu ser um puro nada. Onde estávamos nós, minha alma, durante este tempo? O mundo já existia desde uma longa série de séculos e nada havia de tudo aquilo que nós somos.
2 Pensa que Deus te tirou do anda para te fazer o que és, sem que tu lhe fosses necessária, mas unicamente por sua bondade.
3. Forma uma ideia elevada do ser que Deus te deu, porque é o primeiro e o mais perfeito de todos os seres deste mundo visível, criado para uma vida e felicidade eternas e capaz de unir-se perfeitamente à Majestade Divina.

AFETOS E RESOLUÇÕES

1. Humilha-te profundamente diante de Deus, dizendo com o salmista: Oh! minha alma, sabe que o Senhor é teu Deus e que foi ele que te fez e não tu que te fizeste a ti mesma. Ó Deus, sou uma obra de vossas mãos. Ó Senhor, toda a minha substância é um puro nada diante de vós; e quem sou eu, para que me queirais fazer este bem? - Ah! minha alma, tu estavas mergulhada no abismo do nada e aí estarias ainda, se Deus não tivesse tirado.
2. Agradece a Deus. Ó meu Criador, vós, cuja beleza iguala à grandeza infinita, quanto vos devo, porque me tendes feito por vossa misericórdia tudo isso que eu sou. Que farei eu para bendizer condignamente a vossa infinita bondade?
3. Confunde-te. Mas, ah! meu Criador, em vez de me unir convosco pelo amor e por meus serviços, minha paixões revoltaram meu coração contra vós, separaram e afastaram minha alma de vós e ela entregou-se ao pecado e devotou-se à injustiça. Respeitei e amei tão pouco a vossa bondade, como se não tivésseis sido meu Criador.
Eis aqui, pois, as boas resoluções que vossa graça me faz tomar! Renuncio a estas vãs complacências que, desde há tanto, têm ocupado o meu espírito e o meu coração unicamente comigo mesmo, que sou nada. De que te glorificas, pó e cinza! ou melhor, que tens em ti, verdadeiro e miserável nada, em que te possas comprazer? Quero humilhar-me, e por isso farei isto ou aquilo, sofrerei este ou aquele desprezo; quero absolutamente mudar de vida; seguirei dora em diante o movimento desta inclinação que meu Criador me deu para ele; honrarei em mim esta qualidade de criatura de Deus e como tal me considerarei unicamente: consagrarei todo o ser que recebi dele à obediência que lhe devo, com todos os meios que tenho e sobre os quais pedirei conselhos a meu pai espiritual.

CONCLUSÃO

1. Agradece a Deus. Bendize, ó minha alma, ao Senhor e todas as coisas que há dentro de mim bendigam o seu santo nome!
2. Oferece-te a Deus. Ó meu Deus, eu vos ofereço o meu ser, que vós me destes com todo o meu coração; eu vo-lo consagro.
3. Ora humildemente a Deus. Ó meu Deus, eu vos suplico que me conserveis, pelo vosso poder, nestas resoluções e sentimentos. Ó Virgem SS., eu vos peço que as recomendeis ao vosso Filho divino, com todos aqueles por quem tenho obrigação de rezar. Padre nosso, Ave Maria.
Depois da meditação, colhe daí o assim chamado fruto, isto é, uma verdade qualquer que te produziu maior impressão e comoveu mais o teu coração; durante o dia recorda-te dela de vez em quando, para te conservares nas boas resoluções. É o que costumo de chamar de ramalhete espiritual. Comparo esta prática ao costume daquelas pessoas que tomam consigo pela manhã um ramalhete de flores e o cheiram muitas vezes durante o dia, para em seu suave odor deleitar e fortificar o coração.
Este aviso que te dou aqui servirá também para as meditações seguintes.



Fonte: Sales, S. Francisco de. Filotéia. editora Vozes, 6ª ed. 1940, Petrópolis, RJ.




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