Quatro missivas antiabortistas

Por Savio Laet

Costuma-se dizer que o aborto é só um problema de saúde. Tomemos esta afirmação, assaz falaciosa, porquanto insuficiente, como liame, e, então, vejamos o que lhe resta de verdade. O que diz o juramento hipocrático? Até hoje os médicos o prestam, se bem que com nuances nem sempre felizes. Diz: "(...) também não darei às mulheres pessários para provocar aborto". Este juramento foi atualizado pela Declaração de Genebra. Diz o texto, no vernáculo: “Manterei o mais alto respeito pela vida humana, desde sua concepção. Mesmo sob ameaça, não usarei meu conhecimento médico em princípios contrários às leis da natureza”. Ora, ambas as versões repelem o aborto, repugnam qualquer prática abortiva. E todo médico que quebra este juramento, além de cometer perjúrio, fere a ética e a própria medicina em seus fundamentos. Em 1994, porém, a Assembléia Geral da Associação Médica Mundial, de forma canhestra, modificou parte do juramento. Por exemplo, a parte que diz respeito ao aborto ficou trivial: “Terei respeito absoluto pela vida humana e jamais farei uso dos meus conhecimentos médicos contra as leis da Humanidade.” De fato, esta última versão é um atentado contra o “juramento hipocrático”, que é um patrimônio da humanidade! Se não, vejamos. Tomemos a Declaração de Genebra: “Manterei o mais alto respeito pela vida humana, desde sua concepção. Mesmo sob ameaça, não usarei meu conhecimento médico em princípios contrários às leis da natureza.” A última Declaração da Associação: “Terei respeito absoluto pela vida humana e jamais farei uso dos meus conhecimentos médicos contra as leis da Humanidade.” Ora, na primeira Declaração, afirma-se que a defesa da vida – dever de todo médico – começa com a concepção. Ainda nesta declaração, o médico jura não usar dos seus conhecimentos para interromper o curso natural da vida, que começa com a concepção e termina com a morte natural. Na última Declaração, desta sorte feita pela Associação Médica Mundial, a defesa da vida humana não está mais relacionada com o momento da concepção. Cria-se, pois, uma cisão entre a vida, desde a sua concepção, e a vida humana. Elas já não significam a mesma coisa! Ora, esta ruptura não existia na Declaração de Genebra. Ademais, esta segunda Declaração já não fala do respeito devido à lei natural, mas sim à lei humana ou à lei da Humanidade, criando, destarte, uma oposição inexistente entre uma e outra. De fato, a lei humana procede da lei natural, entendida esta última como a regra imposta aos homens pela razão, por uma singularíssima participação na lei eterna do absoluto Deus. O que identificamos, é que houve uma “ruptura” deletéria, funesta, entre a medicina hodierna e a medicina tal como a concebeu Hipócrates. Se não aceitarmos esta nefanda traição aos ideais hipocráticos, teremos que a descriminalização do aborto é um mal gravíssimo, uma prática famigerada. Mantendo-nos fiéis à concepção tradicional de medicina, como um meio de defesa da vida contra todos os estados de morbidez a que ela está sujeita, temos forçosamente que admitir que o aborto é um problema ético, pois fere o “juramento hipocrático”. Além disso, temos na legalização do aborto um problema político, porque nenhuma lei humana pode legitimar a prática do que é contrário à lei natural.  Temos, por fim, um problema de saúde, pois nenhum médico pode apoiar a prática do aborto, nem usar do seu prestígio para abonar candidatos que, pleiteando cargos públicos, defendam ou favoreçam de forma notória esta prática abominável. Enfim, é impensável que um médico, no exercício da sua profissão, pratique, impunemente, as vis medidas abortivas.

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O ateu diz: eu creio que Deus não existe. O agnóstico diz: eu não creio que Deus existe. Que aqui ninguém nos ouça, mas, trocando em miúdos, o agnosticismo resulta na práxis deletéria do ateísmo. Pensar como se Deus não existisse, implica viver como se Ele não existisse, pois todo ser humano é uma ideia em marcha, é um ideal que busca encarnar-se, realizar-se. Em se tratando da vida, movimento imanente e finalista que não conhece pausas ou intervalos, qualquer atitude, e mesmo qualquer falta de atitude, é uma atitude que se toma e que terá as suas repercussões. Não há neutralidade possível: “Quem não está a meu favor está contra mim, e quem não ajunta comigo, dispersa”. (MT 12, 30; LC 11, 21). A vida não espera, impõe-se: não admite “meio-termo”. Quem não se decide, quem não toma partido, quem suspende o juízo ininterruptamente, desconhece o que é viver e não vive: não sabe viver. A Vida mesma o cobrará: “Conheço tua conduta: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Assim, como és morno, nem frio nem quente, estou para te vomitar de minha boca.” (AP 3, 15-16).

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A vida do espírito é a pétala da natureza. Com o aparecimento da inteligência, a manifestação do consórcio esplendoroso da razão e da vontade. Estreito conúbio que redunda na sinergia da verdade com o bem. O “milagre” da vida alcança uma tangência nunca antes vista: a capacidade de se “auto-determinar”, de iniciar uma nova série causal, de subtrair-se à causalidade natural e subjugar os instintos. Eis a dignidade da pessoa: ser um centro de atribuições. Desde então, não basta interrogar-se: o que sou? Mister é perguntar-se também: quem sou? E há mais. A inteligência, ao ser capaz de agir por si, mostra aptidão para existir por si. Ao conhecer o imaterial, demonstra não estar imersa na matéria e nem ter emergido dela. De onde ela veio? Visto que não existiu sempre, o que a fez? Ao mesmo tempo, como atribuir o princípio de um “quem” a um “que”? Eis a sacralidade da vida humana: ela veio de Deus, por criação. No embrião singelo, desde o primeiro instante da sua concepção, as suas dignidades o acompanham: em potência de expandir-se, a abertura do espírito lá está. Destarte, o ódio à vida do feto é repulsa ao novo que nunca se repete, é repugnância à origem, é repelir à própria noção de nascimento, do diferente. Mas se não nos criamos, também não nos pertencemos. Nossa morte e nossa vida pertencem a Deus: “Pois ninguém de nós vive e ninguém morre para si mesmo, porque se vivemos é para o Senhor que vivemos, e se morremos é para o Senhor que morremos. Portanto, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor.” (RM 14, 7-8). Nestes dias, a vida humana tem sido sujeita às vilanias mais sórdidas dos seus algozes, ela que é o elo entre o mundo material e o espiritual. Não deixemos que este elo se rompa logo na sua gênese.

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O que é isto, a hipocrisia? Hypokrisis (υποκρισία). O prefixo “hipo” significa “embaixo” e o verbo “krinein” significa “decidir”. Portanto, hipocrisia, etimologicamente falando, significa decisão insatisfatória. Com outras palavras, hipócrita é aquele que, podendo informar-se, decide sem conhecimento de causa ou com “segundas intenções”. Neste sentido, são hipócritas os que não respondem com argumentos, mas com ataques. São hipócritas também os que fogem da questão e querem mudar de assunto. No latim tardio (hypocrisis) e mesmo no grego (hypokrisis), hipocrisia passou a significar “atuar”, “representar”, e, por derivação, “julgar” (κρίνω), visto que, na concepção dos antigos, o texto dramático precisava ser interpretado pelo ator. Desta feita, o hipócrita (ὑποκρίτης/ hypokrites) é um ator que representa de forma crítica um papel ou um texto. Em uma palavra, os hipócritas são os bons atores, são os atores críticos (κριτική/ kritiki).

Finalmente, no vocabulário vulgar, “hipócrita” é aquele que sabe “fingir”, que “representa” bem. Neste sentido, as “classes falantes” do nosso país é que são verdadeiramente “hipócritas”, posto que sabem se fazer de vítimas. Dizem-se vítimas, quando, na verdade, por meio da prática do “patrulhamento ideológico”, que exercem com “brilhantismo” nos mais diversos segmentos da nossa sociedade em que militam, são eles que fazem muitas vítimas: caluniam, difamam, vociferam impropérios e disseminam vitupérios aos que pensam diferente deles. Boicotam, embargam quaisquer vozes que os contradigam, e depois dizem ser a minoria perseguida. Eles formam a verdadeira oligarquia do nosso país, mas se autodenominam, de forma exclusiva, preconceituosa e discriminante: “povo”. Cristo adverte acerca destes dissimulados, verdugos da vida: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes.” (MT 7, 15).

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