O Martírio de São Tarcísio

(Versão romanceada)
Por Marcela A. de Castro
Via Ápia, Roma.
Via Ápia, Roma.
- Falta mais um pra completar o time, senão, não tem como começar.
- E como é que agente vai fazer?
- Peraí, vamos ver se aparece alguém.
- Epa! Quem vem lá à direita?
- É o Tarcísio.
- Nosso problema tá resolvido. O manézinho pode servir.
***
Aquela havia sido uma manhã magnífica. As palavras sublimes do sacerdote ainda ecoavam em seus ouvidos. Infelizmente, não se podia convidar as pessoas abertamente, porque a perseguição de Valeriano era implacável e punha em risco não só a vida dos cristãos, mas a própria celebração dos Sagrados Mistérios. Tarcísio não conseguia entender porque os pagãos ficavam tão enfurecidos com os cristãos, mesmo tendo passado mais de duzentos anos da morte de Cristo. Uma só palavra à pessoa errada e tudo estaria acabado. Era preciso despertar o interesse por Jesus nas pessoas de maneira prudente e sábia, de modo que se pudesse confiar nas pessoas antes de convidá-las a participar do Santo Sacrifício. Isso tornava as celebrações nas catacumbas ainda mais emocionantes. Hoje, no entanto, o menino Tarcísio estava pisando nas nuvens. Seu coração estava jubiloso e ele se sentia verdadeiramente honrado com a missão que lhe fora confiada.
Naqueles dias, muitos de seus irmãos na Fé aguardavam nas prisões romanas o dia em que seriam chamados a dar a razão de sua esperança. A grande maioria seria cruelmente entregue às feras enquanto uma turba insana se divertiria vendo seus corpos sendo dilacerados. O único consolo que tinham nesses poucos dias que lhes restava na face da Terra era receber o "Pão dos Fortes". Para estes o pão consagrado era tudo o que precisavam para recobrar o ânimo e não fraquejar. Porém, até isso era algo difícil de se obter em meio a tantas perseguições, detrações e fofocas. Era preciso muita coragem e esperteza para visitá-los nas prisões e dar-lhes o Pão da Vida. Em geral, os sacerdotes escolhiam os mais hábeis socialmente – aqueles que pudessem cumprir essa missão sem levantar suspeitas. O único problema é que naquela manhã não havia ninguém que pudesse levar as espécies sagradas aos cristãos encarcerados.  Mas e ele, será que não contava?
- Não, menino. És jovem demais. Não sabes o risco em que estás querendo te meter. Essa missão é muito perigosa. Se te pegam, poderão te fazer muito mal.
- Sim, sou jovem, mas também sou franzino e posso passar despercebido justamente porque não vão desconfiar de mim. Por favor, suplico-vos que me deixe prestar esse obséquio aos meus irmãos prisioneiros. Farei todo o possível para que os pagãos não me peguem.
 - Então, está bem. – respondeu o sacerdote com um longo suspiro não sem antes hesitar um pouco.
- Toma! Vai depressa e não pares no meio do caminho. Que Deus te abençoe, meu filho. – respondeu Sisto, entregando um embrulho de linho a Tarcísio, que o colocou no peito por dentro da túnica, segurando-o externamente com as mãos.
***
- Chega aí Tarcísio. Agente tava esperando por você pra começar o jogo.
- Hoje não vai dar, Flavius. Estou apressado. Tenho que resolver um problema importante. Fica pra outro dia.
- Ah, qualé! Deixa pra resolver o problema depois. Vamos brincar um pouco.
- Sinto muito, tenho pressa. Hoje não vai dar.
- O manézinho tá apressado pra fazer o quê?
- Ei, o que é que você está escondendo no peito? Deixa a gente ver.
- Me larga, Augustus. Eu preciso ir.
- Então, mostra primeiro o que você está escondendo. Tá correndo o boato que tu anda frequentando as reuniões dos cristãos. De repente você tá escondendo os Mistérios dos Cristãos.
- Eu quero ver os mistérios dos cristãos.
- Eu também.
- Por favor, me deixem passar. Eu preciso ir.
- Virou cristãozinho agora é?
- Pega ele!
"Preciso resistir. Não deixarei que profanem o corpo de Cristo. Que Deus me dê forças. Não hão de me fazer trair a minha missão." pensou o jovem Tarcísio enquanto se via encurralado por um bando de meninos ensandecidos. Um deles tentava a todo custo tirar suas mãos do peito. Naquele momento seus dedos adquiriam uma resistência extraordinária e ninguém podia fazê-lo largar o tesouro que protegia contra o peito.
Uma rasteira e um tombo no chão pedregoso. Um filete de sangue começou a verter do joelho esquerdo. O suor escorria-lhe pela face e pescoço. Seu coração disparara e sua respiração tornara-se ofegante.
- Levanta, rapaz! Mostra o que você tem aí no peito e agente te deixa em paz.
- Seus malvados! Por que vocês estão fazendo isso comigo? Nunca lhes fiz mal algum.
- Tá com medinho, tá? Manézinho, cristão! Vamos te mostrar quem é que manda por aqui.
Chutes, pontapés, impropérios. De uma hora para outra aqueles moleques com quem brincara tantas vezes tornavam-se terríveis algozes, ávidos para fazê-lo revelar o seu preciosíssimo segredo e quem sabe até mesmo destruí-lo. Não permitiria. Resistiria com todas as forças de fosse capaz. Tinha que se levantar de um pulo e sair correndo o mais rápido possível.
Tentou. Mais um tombo. Desta vez arremessaram-no brutalmente de encontro ao chão. Sua cabeça parecia rachada. Sangue jorrava de sua fronte.  Mais chutes nas pernas e barriga. Suas vestes estavam rasgadas.
- Otário, isso é pra você aprender. Agora vamos ver se você mostra ou não o que tem aí escondido.
Uma força sobre-humana se apossara do menino. Seus músculos se retesavam mais ainda e suas mãos cruzadas sobre o tórax pareciam como que de titânio.
Encurvou-se como um feto. Sentia dores. Estava com medo.
Um abismo descortinava-se à sua frente. Era como se estivesse entre o Céu e a Terra. Um pouco mais e não suportaria. Contudo, sabia que seu Senhor sofrera muito mais no madeiro, e para ir ao seu encontro faria qualquer coisa.
Um chute violento nas costas e seus pulmões pareciam prestes a estourar. Gritos frenéticos, xingamentos e pedradas se fizeram ouvir em toda a Via Ápia.
- O que está acontecendo por aqui? – indagou a voz grossa e retumbante de um soldado romano.
Dois meninos puxados para o lado; olhos arregalados de espanto e medo se voltaram para trás. Era hora de bater em retirada para o bando de malfeitores.
Quadratus, uma montanha de músculos em forma humana, ajoelha-se e pega em seus braços o jovem adolescente quase sem vida. Olha-o com ternura e exclama: "Rapaz, o que fizeram com você?!"
Tarcísio mal podia falar, apenas aponta para o peito. Sabe que pode confiar em Quadratus, que há pouco se fizera cristão. Sua face pálida não reflete ódio nem revolta, apenas serenidade e entrega.
- Vou levá-lo para um lugar seguro, amigo. Lá cuidaremos de você.
 Virgínia, uma pagã de meia idade que a tudo assistira de longe enquanto caminhava em direção ao mercado, aproxima-se do soldado com o menino nos braços, olha para Tarcísio com espanto e exclama: – Minha nossa! Pobrezinho! Acho que eu o conheço de algum lugar.
Tarcísio abre os olhos, vira o pescoço lentamente para fitá-la e entrega-lhe um cândido sorriso.
Aquele olhar. Um único olhar. Nunca na vida aquela mulher vira algo igual. Seus lindos olhos azuis eram uma janela para sua alma pura e cheia de fé. Pureza e fé! Era um cristão! E o soldado que o carregava também! Isso restava claríssimo!
Em um átimo Virgínia se dá conta do porquê de sua ânsia de cruzar a Via Ápia justamente naquela hora. O Deus dos cristãos existia! O olhar do menino lhe revelara essa verdade de maneira inexplicável. Daquele momento em diante se faria cristã também.
***
Chegando ao esconderijo com o corpo do menino nos braços, Quadratus olha para o sumo sacerdote. Pela expressão profundamente consternada do soldado, ele compreende imediatamente o que acabara de acontecer. Toca então as mãos de Tarcísio e estas se abrem suavemente para que ele possa guardar as hóstias consagradas.
- Menino valente! Que estejas na Paz do Senhor. Requiescat In Pace. – sussurrou Sisto profundamente consternado.
***
Algumas fontes dão conta de que atualmente os restos mortais de São Tarcísio repousam na Basílica de San Silvestro in Capite, em Roma.
As poucas informações que temos sobre São Tarcísio remontam à época do Papa Dâmaso I, que mandou preparar uma epígrafe em seu túmulo, na qual o compara a Santo Estevão. Acredita-se que o jovem mártir tenha morrido por volta do ano 258.
Sua festa é celebrada no dia 15 de agosto de cada ano. São Tarcísio é patrono dos coroinhas.
Como esta data é reservada pelo calendário hagiológico à solenidade da Assunção de Maria, São Tarcísio não é mencionado neste calendário, apenas na Martirologia Romana.
Peçamos a esse bravo menino mártir que interceda por cada um de nós, a fim de que nosso amor a Jesus Sacramentado cresça a cada dia.

O Vaticano II explicado por Albino Luciani.

IHU – As celebrações para o 50º aniversário da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, previstas para outubro próximo, caem em um momento em que a interpretação dos textos conciliares é um tema de atualidade na vida da Igreja, depois do já célebre discurso do Papa Ratzinger (em dezembro de 2005) sobre a correta hermenêutica e a persistência do dissenso, seja na frente progressista, quanto na tradicionalista.
A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 06-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
No dia 11 de outubro de 1962, na cerimônia de abertura, havia também um jovem prelado, consagrado bispo de Vittorio Veneto pelo próprio João XXIII quatro anos antes. Era Albino Luciani e ele seria o primeiro papa a ter vivido como bispo o Concílio e a aplicá-lo nas suas dioceses.
É interessante notar (como fez Marco Roncalli na sua recente e encorpada biografia de Luciani, editada pela San Paolo) o que o então bispo de Vittorio Veneto esperava no texto enviado a Roma durante a fase preparatória. Luciani, no seu voto, desejava que o futuro Concílio colocasse em destaque o "otimismo cristão" inerente ao ensinamento do Ressuscitado, contra o "pessimismo generalizado" da cultura relativista, denunciando uma substancial ignorância das "coisas elementares da fé".
O futuro papa não havia manifestado um interesse particular pelos temas "técnicos" relativos aos novos modos de consulta colegial dos episcopados, nem pela questão bíblica, ecumênica, eclesiológica. Ao invés, ele havia posto sobre a mesa a necessidade de voltar a anunciar as "coisas elementares da fé", observando já então a crise da transmissão dos seus conteúdos, sinal da secularização.
Quanto à interpretação global a ser dada ao Concílio, Dom Luciani se situa em uma linha que corresponde plenamente àquela hermenêutica da reforma na continuidade proposta por Bento XVI como a chave interpretativa mais correta do Vaticano II. "Na Igreja Católica – escrevia o bispo de Vittorio Veneto –, a fisionomia e as estruturas foram fixadas, de uma vez por todas, pelo Senhor e não podem ser tocadas. No máximo, podem ser tocadas as suas superestruturas: aquilo que não Cristo, mas sim os papas ou os concílios ou os próprios fiéis introduziram ontem pode ser removido ou mudado hoje ou amanhã. Eles introduziram ontem um certo número de dioceses, um certo sistema de direção das missões, de preparação dos sacerdotes, usaram um certo tipo de cultura? Podem-se mudar, e se poderá dizer: 'A Igreja que sai do Concílio ainda é aquela de ontem, mas renovada'. Ao contrário, jamais se poderá dizer: 'Temos uma Igreja nova, diferente da de ontem'".
Mas também é interessante observar o modo pelo qual Luciani viveu o longo processo que levou à promulgação da declaração conciliar sobre a liberdade religiosa Dignitatis Humanae. "Todos estamos de acordo de que há uma única verdadeira religião, e quem a conhece é obrigado a praticá-la, e basta. Mas, dito isso, há também outras coisas que são justas e é preciso dizê-las. Isto é, quem não é convencido pelo catolicismo tem o direito de professar a sua religião por vários motivos.
"O direito natural – continua Luciani – diz que cada um tem o direito de buscar a verdade. Ora, vejam que a verdade, especialmente religiosa, não pode ser buscada fechando-se em uma sala e lendo qualquer livro. Ela é buscada seriamente falando com os outros, consultando-se. Dizem-se apenas por dizer os direitos da verdade, mas há apenas pessoas físicas ou morais que não têm direito de buscar a verdade. Portanto, não tenham medo de dar um tapa na verdade quando vocês dão a uma pessoa o direito de usar da sua liberdade.
"A escolha da religião – explicava ainda o bispo de Vittorio Veneto – deveria ser livre. Quanto mais for livre e convicta, ainda mais quem a abraça se sente honrado. Esses são os direitos, os direitos naturais. Ora, não há um direito ao qual não corresponda também um dever. Os não católicos têm o direito de professar a sua religião, e eu tenho o dever de respeitar o seu direito: eu privado, eu padre, eu bispo, eu Estado".
Concluía Luciani: "Alguns bispos se assustaram: mas então amanhã vêm os budistas e fazem a sua propaganda em Roma, vêm converter a Itália. Ou ainda, há quatro mil muçulmanos em Roma: eles têm o direito de construir uma mesquita. Não há nada a dizer: é preciso deixá-los fazer isso. Se vocês querem que os seus filhos não se tornem budistas ou muçulmanos, vocês têm que dar melhor a catequese, fazer com que eles sejam realmente convencidos da sua religião católica".
"Dar melhor a catequese", isto é, anunciar novamente a fé cristã dar nada como garantido. Uma perspectiva que Bento XVI tem bem presente e que indicou que como prioritária no Ano da Fé.

Luta de classe e autogestão marxista


Essa foi a “receita” de um Fórum Social Mundial, ocorrido em Buenos Aires e  realizado nos mesmos moldes do Fórum de Porto Alegre
Martin Viano

Buenos Aires – De 22 a 25 de agosto p.p., reuniu-se na capital argentina o Fórum Social Mundial para discutir “A crise do neoliberalismo na Argentina e os desafios do movimento global”,sob os auspícios da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Nacional de Buenos Aires.
O evento atraiu ativistas de organizações da esquerda marxista da Argentina e de diversos países sul-americanos, entre os quais representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Movimento dos Sem Terra (MST), do Brasil.
Segundo o Comité de Movilización, propuseram-se – baseados na “experiência de Porto Alegre” – abrir um espaço para articular “movimentos e grupos comprometidos em ações concretas contra o neoliberalismo e o domínio do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo”.
Em pauta, o falido modelo cubano
O Fórum foi inaugurado com uma passeata, que partiu da Plaza de Mayo, onde dezenas de ônibus alugados tinham despejado manifestantes, grande parte dos quais compareceram apenas para receber, no encerramento do ato, um sanduiche com Coca-Cola.
As sessões giraram em torno das diferentes formas de organização e autogestão, com vistas a estender e aprofundar a “resistência” e a “busca de alternativas concretas” face à“globalização neoliberal”, na mesma linha da Internacional Rebelde promovida no Fórum Social de Porto Alegre, já comentado nas páginas de Catolicismo, edição de fevereiro/2002.
Evo Morales, candidato derrotado à presidência da Bolívia, discursou em defesa de Fidel Castro e de Hugo Chavez, conclamando os presentes a se mobilizarem para que “haja muitas Cubas” na América Latina, capazes de acabar com o “imperialismo norte-americano”, em união com os zapatistas do México e os guerrilheiros colombianos.
Internacional Rebelde mobiliza-se
Além de propiciar “formas de resistência do movimento popular” de caráter violento, não pouparam elogios aos “piqueteiros” que na Argentina, só neste ano de 2002, fizeram cerca de 3000 bloqueios de estradas e ruas.
Convém destacar ainda que, entre as atividades autogestionadas do Fórum, ocorreu também uma sessão abortista contrária à “proibição do aborto”, absurdamente explicada como sendo a “negação para as mulheres de uma sexualidade não reprodutiva”.
Uma sensação de fracasso do Fórum foi transmitida por uma mulher de aproximadamente 30 anos, com fortes traços indígenas, comentando que tinham deixado de concorrer para o evento muitos companheiros do interior da Argentina e do Uruguai.
Isso não impede, entretanto, que as esquerdas da Internacional Rebelde estejam se preparando para novas mobilizações: em Quito (Equador) neste mês, por ocasião da reunião doAcordo de Libre Comércio en las Américas (ALCA); e na IV Cumbre de Presidentes de las Américas— que contará com a presença do presidente norte-americano — a realizar-se na capital argentina em abril de 2003.