Sacerdote de CRISTO, um Sinal de Amor (II)

O mistério da piedade: a Fonte de Amor é uma Pessoa

 Por Allan Lopes
Na plenitude dos tempos, nasce em Belém a Fonte do Amor que inundou a terra com as suas torrentes, vive no meio dos homens, angustia-se no jardim das oliveiras, é flagelado, coroado de espinhos, morre no alto da Cruz como um ladrão, ressuscita ao terceiro dia e dá a vida eterna aos que Lhe são fiéis à sua amizade: a salvação chegou para nós! Eis a grande Boa Nova[1]!
Como entender nos dias de hoje o que é esta salvação? Ora, o salvador do gênero humano nasce frágil e no cocho dos animais! Como se não bastasse esta humilhação, Ele vem até os pecadores e diz: Tenho sede! E é esta a salvação que nos foi dada: o Criador se faz criatura, o Médico se faz enfermo. Nosso orgulho e amor próprio, até então invencíveis, mesmo aos mais heróicos dos homens, é dobrado e aniquilado pela simples lágrima do Menino Deus, e das humildes e doces palavras do filho do carpinteiro que nos diz: Vinde a mim todos vós que estais cansados, e Eu vos darei descanso[2]! Diante deste amor que orgulho e amor próprio pode resistir? Diante do Sol em seu máximo esplendor, que sobra o pode conter?
Mas de que sede teria o salvador dos homens? De que teria sede o Senhor do céu e da terra? De quem teria sede a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade? Ele é o Único e o Necessário: é um grande mistério! Difícil de compreender a luz da razão natural, e mesmo sob a luz da graça. Somente quando a graça for transformada em glória, poderemos mergulhar neste oceano de amor que é o Coração de Jesus. Ele tem sede de almas, sede de amor.
E foi este mistério da piedade, manifestado e revelado por Cristo, que levou tantos homens a se consagrarem por inteiro, corpo e alma. Ele chamou-nos a unir as nossas angústias às d’Ele, nossas tristezas às d’Ele, nossas dores às d’Ele. Os que outrora eram dignos de ignomínia, agora são membros do Corpo, do qual Cristo é a cabeça.
O amor, descrito por poetas, especulado pelos filósofos, agora é uma Pessoa, mas não uma pessoa envolta de fracassos como nós! Não, mas uma Pessoa Divina, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Homem como nós, e ao mesmo tempo, Deus. Afinal, quem poderia saciar esta sede de amor que há em cada homem se não fosse o próprio Deus de Amor?! Ele veio até nós, se compadeceu de nossas fraquezas. O Verbo se fez carne: “Et Verbum caro factum est et habitavit in nobis; et vidimus gloriam eius, gloriam quasi Unigeniti a Patre, plenum gratiae et veritatis[3]”.
E sob seu mandamento de amor é que se encontra a resposta para as nossas angústias. É amando a Deus, sendo amado por Ele, e amando ao próximo por causa dele que encontramos a razão de nossa existência. Os nossos problemas se resolvem no amor.

[1] “O Filho de Deus trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu
com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-
Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado” (Cf. Catecismo, n° 470)
[2] Mt 11, 28.
[3] Jo 1, 1.

O progressismo - do Cardeal Giuseppe Siri (I)

in «Rivista Diocesana Genovese», janeiro de 1975, pp. 22-36

Vivemos na época das “palavras”. Para vencer batalhas civis (e não somente estas) cunham-se palavras e ditos icásticos, resumidos (slogans). Para vencer homens se emprega qualquer termo ou classificação que as circunstâncias sugerem ser aptos ao escopo de destruir. Para anestesiar cidadãos e fiéis cunham-se palavras. Aquilo que surpreende é o fato de os homens, em vez de se deixarem abater por autênticas espadas, se deixam abater tão somente por palavras. Por isso os termos, os slogans, as classificações da moda devem ser avaliadas, entendidas, eventualmente desmascaradas. Começo, portanto, a publicar notas esclarecedoras. Espero que o nosso clero as queira ler bem, para evitar uma sorte inglória. Comecemos pelo termo mais em voga, usado como um divisor ou como uma proteção para o próprio agente: “progressismo”. De tantas pessoas se diz que são ou não são “progressistas”. Vejamos claramente e, se tivermos de restituir um termo à exata função, não coagida, como é sereno e doce o nosso italiano falado, não é necessário recusar tal mérito.

Elenquemos, portanto, os casos mais frequentes nos quais se usa o termo “progressista”. Ofereçamos um espelho para que cada um nele se mire.

1. Ser independentes da lógica teológica
Muitas vezes o “progressismo” significa isto, ou ainda mais, quando se atribui a si uma tal independência, há quem se glorie de ser “progressista”. Vejamos pois o que quer significar. Conclusões para depois. O que é este “desinteresse total pela lógica teológica”?
Lógica teológica é o conjunto das normas pelas quais, sendo aplicadas, se pode embasadamente chegar a afirmar como revelada, ou também como simplesmente certa, uma proposição.
Estas normas, que constituem a lógica teológica, na realidade se reduzem (falamos, note-se bem, da “lógica”, não da Revelação) a um princípio: o magistério infalível da Igreja. De fato é ao magistério infalível da Igreja, seja solene, seja ordinário, que é confiada a interpretação certa e autêntica tanto da Escritura quanto da divina tradição. E é lógico. De fato, se Deus tivesse entregado aos homens uma quantidade de rolos escritos ou de fitas magnéticas para fazer ouvir a palavra viva e se tivesse parado aí, a um certo ponto nada teria funcionado, se encontraria um modo de fazer com que a Palavra divina diga tudo o que se quer, o contrário daquilo que se quer, o contraditório daquilo que se quer e não se quer, infinitamente. A verdade salvífica não teria podido funcionar entre os homens. As provas? Nós as temos diante dos olhos e apelamos somente para duas.

A primeira é que com uma natureza imensamente nítida, a história humana teve continuamente filosofias turvas, o contrário, o contraditório desse. A demonstração do que o homem sabe fazer com o seu pensamento, entregue a si mesmo e aos estímulos do próprio eu ou das próprias trevas, nos dá a história da filosofia e, ainda melhor, a filosofia da história da filosofia.

Jornalista português, agnóstico, fala sobre Pedofilia

LAVS DEO!
Prezados leitores, eis um incitante artigo de um agnóstico sobre 'pedofilia'.
Salve MARIA!


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É arriscado escrever sobre estas coisas.  Não estão na moda.

"Público", 2010 04 02 José Manuel Fernandes

Não sou crente. Educado na fé católica, passei pelo ateísmo militante e hoje defino-me como agnóstico. Talvez não devesse, por isso, pôr-me a discutir os chamados "escândalos de pedofilia" na Igreja Católica. Até porque não sei se, como escreveu António Marujo neste jornal - no texto mais informado publicado sobre o tema em jornais portugueses -, estamos ou não perante "A maior crise da Igreja Católica dos últimos 100 anos".

Tendo porém a concordar com um outro agnóstico, Marcello Pera, filósofo e membro do Senado italiano, que escreveu no Corriere della Sera que se, sob o comunismo e o nazismo, "a destruição da religião comportou a destruição da razão", a guerra hoje aberta visa de novo a destruição da religião e isso "não significará o triunfo da razão laica, mas uma nova barbárie". Por isso acho importante contrariar muitas das ideias feitas que têm marcado um debate inquinado por muita informação errada ou manipulada.

Vale por isso a pena começar por tentar saber se o problema da pedofilia e dos abusos sexuais - um problema cuja gravidade ninguém contesta, ocorram num colégio católico, na Casa Pia ou na residência de um embaixador - tem uma incidência especial em instituições da Igreja Católica. Os dados disponíveis não indicam que tenha: de acordo com os dados recolhidos por Thomas Plante, professor nas universidades de Stanford e Santa Clara, a ocorrência de relações sexuais com menores de 18 anos entre o clero do sexo masculino é, em proporção, metade da registada entre os homens adultos. É mesmo assim um crime imenso, pois não deveria existir um só caso, mas permite perceber que o problema não só não é mais frequente nas instituições católicas, como até é menos comum. Tem é muito mais visibilidade ao atingir instituições católicas.

Uma segunda questão muito discutida é a de saber se existe uma relação entre o celibato e a ocorrência de abusos sexuais. Também aqui não só a evidência é a contrária - a esmagadora maioria dos abusos é praticada por familiares próximos das vítimas - como o tema do celibato é, antes do mais, um tema da Igreja e de quem o escolhe. Não existiu sempre como norma na Igreja de Roma e hoje esta aceita excepções (no clero do Oriente e entre os anglicanos convertidos). Pode ser que a norma mude um dia, mas provavelmente ninguém melhor do que o actual Papa para avaliar se esse momento é chegado - até porque talvez ninguém, no seio da Igreja Católica, tenha dedicado tanta atenção ao tema dos abusos sexuais e feito mudar tanta coisa como Bento XVI.

Se algo choca na forma como têm vindo a ser noticiados estes "escândalos" é o modo como, incluindo no New York Times, se tem procurado atingir o Papa. Não tenho espaço, nem é relevante para esta discussão, para explicar as múltiplas deturpações e/ou omissões que têm permitido dirigir as setas das críticas contra Bento XVI, mas não posso deixar de recordar o que ele, primeiro como cardeal Ratzinger e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, depois como sucessor de João Paulo II, já fez neste domínio.

Até ao final do século XX o Vaticano não tinha qualquer responsabilidade no julgamento e punição dos padres acusados de abusos sexuais (e não apenas de pedofilia). A partir de 2001, por influência de Ratzinger, o Papa João Paulo II assinou um decreto - Motu proprio Sacramentorum Sanctitatis Tutela - de acordo com o qual todos os casos detectados passaram a ter de ser comunicados à Congregação para a Doutrina da Fé. Ratzinger enfrentou então muitas oposições, pois passou a tratar de forma muito mais expedita casos que, de acordo com instruções datadas de 1962, exigiam processos muito morosos. A nova política da Congregação para a Doutrina da Fé passou a ser a de considerar que era mais importante agir rapidamente do que preservar os formalismos legais da Igreja, o que lhe permitiu encerrar administrativamente 60 por cento dos casos e adoptar uma linha de "tolerância zero".

Depois, mal foi eleito Papa, Bento XVI continuou a agir com rapidez e, entre as suas primeiras decisões, há que assinalar a tomada de medidas disciplinares contra dois altos responsáveis que, há décadas, as conseguiam iludir por terem "protectores" nas altas esferas do Vaticano. A seguir escolheu os Estados Unidos - um dos países onde os casos de abusos cometidos por padres haviam atingido maiores proporções - para uma das suas primeiras deslocações ao estrangeiro e, aí (tal como, depois, na Austrália), tornou-se no primeiro chefe da Igreja de Roma a receber pessoalmente vítimas de abusos sexuais. Nessa visita não evitou o tema e referiu-se-lhe cinco vezes nas suas diferentes orações e discursos.

Agora, na carta que escreveu aos cristãos irlandeses, não só não se limitou a pedir perdão, como definiu claramente o comportamento dos abusadores como "um crime" e não apenas como "um pecado", ao contrário do que alguns têm escrito por Portugal. Ao aceitar a resignação do máximo responsável pela Igreja da Irlanda também deu outro importante sinal: a dureza com que o antigo responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé passou a tratar os abusadores tem agora correspondência na dureza com que o Papa trata a hierarquia que não soube tratar do problema e pôr cobro aos crimes.

De facto - e este aspecto é muito importante - a ocorrência destes casos de abusos sexuais obriga à tomada de medidas pelos diferentes episcopados. Quando isso acontece, a situação muda radicalmente. Nos Estados Unidos, país onde primeiro se conheceu a dimensão do problema, a Conferência de Dallas de 2002 adoptou uma "Carta para a Protecção de Menores de Abuso Sexual" que levaria à expulsão de 700 padres. No Reino Unido, na sequência do Relatório Nolan (2001), acabou-se de vez com a prática de tratar estes assuntos apenas no interior da Igreja, passando a ser obrigatório dar deles conta às autoridades judiciais. A partir de então, como notava esta semana, no The Times, William Rees-Mogg, a Igreja de Inglaterra e de Gales "optou pela reforma, pela abertura e pela perseguição dos abusadores em vez de persistir no segredo, na ocultação e na transferência de paróquia dos incriminados".

Bento XVI, que não despertou para este problema nas últimas semanas, não deverá precipitar decisões por causa desta polémica. No passado domingo, durante as cerimónias do Domingo de Ramos, pediu aos crentes para não se deixarem intimidar pelos "murmúrios da opinião dominante", e é natural que o tenha feito: se a Igreja tivesse deixado que a sua vida bimilenar fosse guiada pelo sentido volátil dos ventos há muito que teria desaparecido.

Ao mesmo tempo, como assinalava John L. Allen, jornalista do National Catholic Reporter, em coluna de opinião no New York Times, "para todos os que conhecem a experiência recente do Vaticano nesta matéria, Bento XVI não é parte do problema, antes poderá ser boa parte da solução".

Uma demonstração disso mesmo pode ser encontrada na sua primeira encíclica, Deus Caritas Est, de 25 de Dezembro de 2005, ano em que foi eleito. Boa parte dela ocupa-se da reconciliação, digamos assim, entre as concepções de "eros", o termo grego para êxtase sexual, e de "ágape", a palavra que o cristianismo adoptou para designar o amor entre homem e mulher. Se, como referia António Marujo na sua análise, o teólogo Hans Küng considera que existe uma "relação crispada" entre catolicismo e sexualidade, essa encíclica, ao recuperar o valor do "eros", mostra que Bento XVI conhece o mundo que pisa.

Por isso eu, que nem sou crente, fui informar-me sobre os casos e sobre a doutrina e escrevi este texto que, nos dias inflamados que correm, se arrisca a atrair muita pedrada. Ela que venha.