Lançado em 2011 na Itália, a prestigiosa obra do Professor Roberto de Mattei, intitulada "O Concílio Vaticano II - Uma história nunca escrita", chega agora ao público lusófono. A Editora Caminhos Romanos, detentora dos direitos sobre a versão portuguesa do laureado livro -- Prêmio Acqui Storia 2011 e finalista do Pen Club Italia -- , concedeu ao Fratres in Unum a exclusiva honra de divulgar alguns excertos deste trabalho que é um verdadeiro marco na historiografia do Concílio Vaticano II.
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A expressão "Terceiro Partido" foi cunhada pelo historiador francês Émile Appolis em estudos sobre as correntes religiosas do século XVIII [1]. Segundo Appolis, o jansenismo, condenado pela Igreja, produziu um "Terceiro Partido", constituído por eclesiásticos de diversas categorias que ofereceram aos jansenistas a possibilidade de prosperarem no interior da Igreja. Tais eclesiásticos não se apresentavam, evidentemente, como jansenistas, e até condenavam o jansenismo, mas não o combatiam, defendendo a tese de que ele acabaria por se dissolver discretamente se os antijansenistas pusessem fim às suas campanhas de oposição. Assim, surgiu nas fileiras católicas, a par dos jansenistas e dos sequazes da autoridade romana, uma terceira força, tambéma ela oposta a quantos eram fiéis a Roma, que acusava de serem exagerados, intransigentes e inimigos da caridade. Aplicando esta polarização, houve outros historiadores que referiram a existência, neste período, de uma corrente de "centro", localizada entre a direita ortodoxa dos jesuítas e a "esquerda" galicana e jansenista [2]. Por muito inadequadas que estas categorias sejam, não há dúvida de que o distanciamento do pólo da ortodoxia integral tinha conhecido matizes diversos, que permitiam falar da existência de uma "terceira força", situada entre a verdade integral e o erro declarado.
[...] Após a morte de Pio X, começou a delinear-se, a partir de 1920, uma terceira força que, distanciando-se embora do modernismo, garantia de facto a sua continuação, mesmo depois da sua condenação [3]. Este "Terceiro Partido" impôs-se graças ao apoio do Cardeal Pietro Gasparri [4], secretário de Estado de Bento XV e, depois, de Pio XI até 1930, altura em que foi substituído por Eugenio Pacelli. O desaparecimento do antimodernismo, substituído pela política eclesiástica do "Terceiro Partido", favoreceu, nos anos 30, o surgimento de correntes e tendências que, de uma maneira ou de outra, absorveram a herança do modernismo: o "movimento bíblico", o "movimento litúrgico", o "movimento filosófico-teológico" -- que encontrou a sua expressão mais acabada na "nouvelle théologie" --, bem como o "movimento ecuménico", no qual vieram a confluir os outros movimentos.
O Concílio Vaticano II - Uma história nunca escrita, Roberto de Mattei, Ed. Caminhos Romanos, 2012, pp. 39-40.
Notas:
[1] Cf. Émile Appolis, "Entre jansénistes et constitutionnaires: un tiers parti", in Annales, 2 (1951), pp. 154-171; e posteriormente Entre jansénistes et zelanti. Le Tiers Parti catholique au XVIIIeme siécle, A. e J. Picard, Paris, 1962. Veja-se igualmente Antonio de Castro Mayer, "Il Giansenismo e la Terza Forza", tr. it. Cristianitá, 1 (1973), pp. 3-4 e 2 (1973), pp.3-4.
[2] Cf. Lucien Cayssens, "Le jansénisme. Considerátions historiques préliminaires à sa notion", in Nuove ricerche storiche sul giansenismo, Gregoriana, Roma, 1959, pp. 28-29. Veja-se igualmente R. de Mattei, Idealità e dottrine della Amicizie, Biblioteca Romana, Roma, 1981, pp. 15-22.
[3] Cf. R. de Mattei, Modernismo e antimodernismo nell'epoca di Pio X, cit., pp. 68-71.
[4] Pietro Gasparri (1852-1934), ordenado em 1877 e arcebispo de Cesareia (1898), foi feito cardeal em 1907 e nomeado secretário de Estado pelo Papa Bento XV, no Outono de 1914, cargo no qual foi confirmado por Pio XI.
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Roberto de Mattei nasceu em Roma, em 1948. Formou-se em Ciências Políticas na Universidade La Sapienza. Atualmente, leciona História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, no seu departamento de Ciências Históricas, de que é o director. Até 2011, foi vice-presidente do Conselho Nacional de Investigação de Itália, e entre 2002 e 2006, foi conselheiro do Governo italiano para questões internacionais. É membro dos Conselhos Diretivos do Instituto Histórico Italiana para a Idade Moderna e Contemporânea e da Sociedade Geográfica Italiana. É presidente da Fundação Lepanto, com sede em Roma, e dirige as revistas Radici Cristiane e Nova Historica e colabora com o Pontifício Comitê de Ciências Históricas. Em 2008, foi agraciado pelo Papa com a comenda da Ordem de São Gregório Magno, em reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à Igreja.
Onde encontrar: Livraria Petrus - R$ 89,00.
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