“Como bispo não posso me calar”. Excertos do livro “Dominus Est”, de Dom Athanasius Schneider

Consciente da grandeza e importância do momento da sagrada comunhão, a Igreja em sua bimilenária tradição procurou encontrar uma expressão ritual que pudesse testemunhar do modo mais perfeito sua fé, seu amor e seu respeito. Isto verificou-se quando, na esteira de um desenvolvimento orgânico, no Ocidente, a partir dos séc. VIII-IX, e no Oriente, já alguns séculos antes, a Igreja em todas as suas tradições litúrgicas começou a adotar o modo de distribuir as sagradas espécies eucarísticas diretamente na boca. Na tradição dos ritos latinos se ajuntou ainda o gesto de ajoelhar-se, uma expressão ritual própria do cristianismo ocidental. Este desenvolvimento se pode considerar como um fruto da espiritualidade e da devoção eucarística do tempo dos Padres da Igreja. Existem várias exortações ardentes dos Padres da Igreja sobre a máxima veneração, delicadeza e cuidado para com o Corpo eucarístico do Senhor, em particular a respeito dos fragmentos do pão consagrado. Quando se começou a notar que não existiam mais as condições que garantiam o cumprimento das exigências de máximo respeito e do caráter altamente sagrado do pão eucarístico, a Igreja, seja no Ocidente, seja no Oriente, com um admirável consenso e quase instintivamente percebeu a urgência de modificar o rito então vigente, isto é, passando da distribuição da comunhão na mão à distribuição na boca. A este desenvolvimento contribuiu igualmente um crescente aprofundamento da fé na presença real, que se expressou no Ocidente na praxe da adoração do SS. Sacramento solenemente exposto.

[...] Nos últimos decênios se difundiu em várias Igrejas locais do Rito latino (sobretudo no Ocidente) o uso de distribuir a comunhão na mão. A partir de uma análise serena e imparcial deste uso em muitíssimos lugares, se deve necessariamente constatar o que se segue: um dos momentos mais importantes e, portanto, mais sagrados e solenes da liturgia eucarística, como é a sagrada comunhão, torna-se sempre menos sacral e fonte de contínua profanação involuntária e até voluntária. Onde hoje mais se evidenciam as sombras na celebração eucarística e uma alteração do sentido do sagrado é precisamente o modo de distribuir a comunhão.

O modo da distribuição da comunhão na mão é realizado nos nossos dias infelizmente em condições históricas bastante desfavoráveis, quer dizer: notável diminuição da fé na presença real, do respeito e da sensibilidade pelo sagrado, mentalidade consumista, aproximação indiscriminada e incontrolável à sagrada comunhão, muitas vezes de todos os presentes na liturgia, também das pessoas não bem dispostas, não católicas e até não batizadas (um fenômeno que se verifica de maneira mais marcante nas celebrações de massa), e, enfim, um crescente fenômeno de profanações de hóstias consagradas por parte de grupos esotéricos e satânicos.

O próprio rito de distribuição na mão contribui, no hodierno contexto histórico, a uma progressiva e bastante difundida negligência com relação aos fragmentos, o que, juntamente com o não-uso da patena de comunhão, faz com que os fragmentos caiam por terra e se percam com grande facilidade. Assim acontece com freqüência, e sempre mais vem aumentando, que os fragmentos eucarísticos, as pérolas mais preciosas que existem sobre esta terra, são literalmente pisoteados nas igrejas católicas, sem os fiéis disso se aperceberem.

Como contrasta este fenômeno, minimizado ou silenciado por não poucos pastores da Igreja nos nossos dias, com a preocupação dos Padres da Igreja para que não se perdesse nem mesmo o mínimo fragmento do pão eucarístico!

[...]

Num tempo em que se dava a comunhão somente na boca e era prescrito até o uso da patena de comunhão, o Papa Pio XI ordenou a publicação da seguinte premente exortação:

“Na administração do sacramento eucarístico se deve mostrar um particular zelo, a fim de que não se percam os fragmentos das hóstias consagradas, já que em cada uma delas está presente o Corpo inteiro de Cristo. Por isso, tome-se o máximo cuidado para que os fragmentos não se separem fácilmente da hóstia e não caiam por terra, onde – horribile dictu! – se poderiam misturar com a sujeira e ser pisoteados com os pés”.

O grande Papa João Paulo II, já há 25 anos, falando exatamente do uso da comunhão na mão, constatou deploráveis faltas de respeito para com as Espécies eucarísticas, faltas que pesam… também sobre os Pastores da Igreja, que terão sido pouco vigilantes quanto à compostura dos fiéis em relação à Eucaristia.

[...]

São numerosos os exemplos das Igrejas locais, onde já se pratica há algum tempo a comunhão na mão, comprovando o fato inegável que este modo de distribuir o Corpo do Senhor produziu, em larga escala, um dano à vida espiritual da Igreja. Nos seus gestos, o rito hodierno não corresponde à praxe da Idade patrística, mas evoca mais facilmente a mentalidade consumista e anti-sacral do fim da década de 60, exatamente quando foi introduzido em alguns países da Europa setentrional, em desobediência às normas da Igreja, e em seguida, obtida a legitimação com uma maciça pressão sobre o Papa Paulo VI.

Prevendo realisticamente os danos espirituais desse uso, o Papa Paulo VI e a maioria do episcopado católico (do qual a grandíssima maioria participou do Concílio Vaticano II) julgaram não introduzí-lo. Pensando que não se poderia fazer parar este uso já difundido, o Papa Paulo VI o concedeu contra sua vontade.

Os prognosticados danos espirituais de um novo generalizado rito da comunhão na mão, indicados pela maioria dos bispos no ano de1968 e da Santa Sé na Instrução Memoriale Domini do ano de 1969, foram os seguintes:

• grande perigo de profanações e sacrilégios,

• negligência para com os fragmentos do pão consagrado,

• o fato que cada um toma o Corpo do Senhor com as suas mãos e dedos contribuirá a igualar o pão eucarístico ao pão comum,

• perda do caráter sagrado do gesto,

• falta de respeito,

• falsas opiniões sobre o sacramento eucarístico,

• dano à fé das crianças e das pessoas simples.

O Papa Paulo VI e a maioria do episcopado do ano de 1968 expressaram o juízo de que a comunhão na boca assegura e garante mais eficazmente o respeito, o caráter sagrado, o decoro, a fé na presença real e a devoção dos fiéis. O documento Memoriale Domini de 29 de maio de 1969, expressando o pensamento do Papa Paulo VI, fazia esta observação acertada:

“Uma mudança em coisa de tamanha importância, baseada numa tradição antiquíssima e venerável, não se refere somente à disciplina; poder-se-ia demonstrar fundado o receio de eventuais perigos derivados desta nova maneira de distribuir a Comunhão: o perigo, por exemplo, de diminuir o reverência para com o SS. Sacramento do altar, ou o perigo de uma sua profanação ou também de uma alteração da sã doutrina.”

O mesmo documento diz que se deve excluir qualquer impressão de que a consciência da Igreja cedeu no que diz respeito à fé na presença eucarística, como também qualquer perigo ou simplesmente aparência de perigo de profanação.

E numa carta da Secretaria de Estado ao episcopado católico, do dia 28/10/1968, se dizia que o novo rito de comunhão representava uma coisa grave em si mesma e nas suas conseqüências.

Os temores do Papa Paulo VI e da maior parte do episcopado católico dos anos 1968-1969 foram mais que fundados e encontraram plena confirmação na praxe do modo hodierno de distribuir a comunhão na mão. Este rito, visto sobre larga escala, produziu e continua infelizmente a produzir um dano espiritual não insignificante para a Igreja. E assim se dá uma situação contraditória e espiritualmente dolorosa na vida eucarística de muitas Igrejas locais: no momento da sagrada comunhão, que exige por sua natureza o máximo respeito, decoro, caráter sagrado, delicadeza, máxima vigilância, se verifica uma preocupante banalização do Santo dos Santos.

As tentativas de harmonizar ou minimizar este estado das coisas equivaleriam a fechar os olhos sobre a realidade. Já há mais de 20 anos, o Cardeal J. Ratzinger fez a seguinte constatação preocupante a respeito do momento da comunhão em vários lugares: “Nós não nos elevamos mais à grandeza do evento da comunhão, mas arrastamos o dom do Senhor para baixo, ao ordinário da livre disposição, à cotidianidade”.

Conseqüentemente, existe uma verdadeira urgência pastoral que exige uma modificação na situação atual da distribuição da sagrada comunhão. Levando em conta a dinâmica inata das coisas novas e mais cômodas a impor-se em proporções gerais e da pressão psicológica da “moda”, a comunhão na mão está suprimindo de fato sempre mais a comunhão na boca. Para que um fiel continue, em tais circunstâncias, a receber a comunhão na boca e ajoelhado, é verdadeiramente necessária uma grande maturidade espiritual e uma coragem não comum. A liberdade de escolha é, de fato, reduzida ao mínimo, como comprovam tantos testemunhos de fiéis. Não se deve negligenciar a intenção do Papa Paulo VI, expressa tão nitidamente no documento Memoriale Domini: “O Sumo Pontífice não julgou oportuno mudar o modo tradicional de distribuir a sagrada Comunhão aos fiéis. Portanto, a Sé Apostólica exorta ardentemente aos bispos, sacerdotes e fiéis a observar com amorosa fidelidade a disciplina em vigor”. Diante da milenar tradição de distribuir a comunhão na boca – fruto feliz de um desenvolvimento orgânico da fé e da piedade eucarística do primeiro milênio – essa inovação não trouxe uma verdadeira utilidade para a Igreja.

Dom Athanasius Schneider, ‘Dominus Est’

"Será que vou ver os padres de batina antes de morrer?"

Atravesando a rua em Copacabana, no Rio de Janeiro, um senhor de mais de oitenta anos de idade me disse comovido: "Por favor, não deixe de usar a batina! Peço a DEUS que o Papa Bento XVI faça algo para os padres usarem batina. Desculpe te parar assim, meu filho, mas é um colírio para os olhos ver seminarista e padres de batina!"
E mais uma vez disse: "É um colírio para os meus olhos! Será que vou ver os padres de batina antes de morrer? Já tenho mais de oitenta anos, sou Católico Apostólico Romano, gostaria muito que isso acontecesse...". Despediu-se e prometeu-me rezar pela minha vocação.

Não quero aqui sentimentalizar o uso do hábito eclesiástico. Não pretendo discutir a obrigação do mesmo. Apenas não pude conter o pedido comovido de um senhor de mais de oitenta anos.

No início do mês de Julho fui em missão para Barretos - SP (interior de SP), lá Padre André um sacerdote muito experimentado, conhecido por sua santidade, disse-me o mesmo; as palavras eram idênticas.

Acontece que S.S. Bento XVI nada precisa pedir. O Código já diz, as Cartas do Servo de DEUS João Paulo II e Bento XVI já nos dizem.


Rezemos para que os Padres e Seminaristas voltem a usar o hábito eclesiástico.

LAVS DEO!

A ABERTURA DO ANO SACERDOTAL

Caros Sacerdotes,

Um acontecimento extraordinário, assinalado pelo sopro do Espírito Santo, cheio de esperança, de alegria e de caridade pastoral. Assim foi a abertura do Ano Sacerdotal com o Santo Padre Bento XVI, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, durante a celebração das segundas Vésperas da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, no dia 19 de junho último. A Basílica estava repleta: participaram 32 Cardeais, muitos Bispos, Prelados, mas, sobretudo, uma multidão de sacerdotes, muitos religiosos e leigos. O clima era de intensa devoção, piedade e escuta do Senhor. Ao final das Vésperas, houve a Bênção Eucarística, precedida por uma expressiva adoração silenciosa. Realmente, um silêncio absoluto e orante difundiu-se em meio àquela multidão ajoelhada: era impossível não se comover profundamente e não sentir a forte presença de Jesus Cristo, o Bom Pastor, que confirma os seus sacerdotes e toda a Igreja.

Pouco antes da Oração das Vésperas, entrou em procissão na Basílica de São Pedro, a relíquia do coração de São João Maria Vianney, trazida de Ars. O Santo Padre, logo após o seu ingresso para iniciar a cerimônia, foi até a relíquia, fazendo uma significativa oração ao Santo Cura d’Ars, em favor dos sacerdotes.

Na homilia das Vésperas, o Papa falou da profunda relação existente entre o Sagrado Coração de Jesus, os sacerdotes e o Santo Cura d’Ars, apresentando-o como “modelo e protetor de todos nós sacerdotes, e, de modo particular, dos párocos”. Era evidente a alegria do Papa e como o seu rosto resplandecia. Todos os seus gestos eram muito acolhedores para com a assembléia, mas, ao mesmo tempo, transparecia a centralidade do grande mistério de Deus. Comentando um texto do profeta Oséias, disse: “O coração de Deus estremece de compaixão! Na solenidade do Sagrado Coração de Jesus, a Igreja apresenta este mistério à nossa contemplação, o mistério do coração de um Deus que se comove e derrama todo o seu amor sobre a humanidade”. De maneira similar, o coração de cada sacerdote deve ser um coração que se comove diante das chagas e dos sofrimentos espirituais, morais e corporais dos seres humanos e de cada homem e mulher, e, por isso, um coração que versa todo o seu amor sobre a humanidade, a exemplo do Bom Pastor, Jesus. O Santo Cura d’Ars, durante a sua vida sacerdotal, era impulsionado por esta comoção e amor. Acrescenta o Papa: “Seu Coração divino apela então ao nosso coração; convida-nos a sair de nós mesmos e a abandonar nossas seguranças humanas para confiarmos Nele e, seguindo seu exemplo, a fazer de nós mesmos um dom de amor sem reservas”.

Dessa forma, o Papa nos impele, a nós sacerdotes, a não duvidarmos e a sermos fortes nesta doação “sem reservas”, no seguimento de Jesus como discípulos muito próximos a Ele, confiantes e prontos a segui-Lo para onde quer que nos conduza, desejosos de sermos semelhantes ao Senhor. Neste “sem reservas”, situa-se também a vida celibatária. Neste contexto, disse o Papa: “Se é verdade que o convite de Jesus a ‘permanecer em seu amor’ (cf. João 15, 9) dirige-se a todo batizado, na festa do Sagrado Coração de Jesus, Dia de Santificação Sacerdotal, este convite ressoa com maior força para nós, sacerdotes, em particular nesta tarde, solene início do Ano Sacerdotal, que convoquei por ocasião do 150º aniversário da morte do Santo Cura de Ars”.

O Santo Padre não poderia deixar de fazer referência ao triste fato dos sacerdotes que não são fiéis e, em alguns casos particulares, envolvidos em delitos muito graves. Assim afirmou: “Como esquecer que nada faz sofrer mais a Igreja, Corpo de Cristo, do que os pecados dos seus pastores, sobretudo daqueles que se convertem em “ladrões de ovelhas” (João 10, 1ss), seja porque as desviam com suas doutrinas privadas, seja porque as atam com laços de pecado e de morte? Também a nós, queridos sacerdotes, aplica-se o chamado à conversão e a recorrer à Misericórdia Divina, e igualmente devemos dirigir com humildade incessante a súplica ao Coração de Jesus para que nos preserve do terrível risco de causar dano àqueles a quem devemos salvar”.

Na conclusão de sua homilia, o Santo Padre nos estimula a buscar o caminho da santidade: “A Igreja tem necessidade de sacerdotes santos, de ministros que ajudem os fiéis a experimentar o amor misericordioso do Senhor e sejam suas testemunhas convictas”, e uma vez mais, volta a falar com grande amor ao nosso coração sacerdotal, da comoção que faz o coração de Deus estremecer. Um Deus que nos ama e quer nos salvar, uma comoção que também deve encher o coração de cada sacerdote: “Cultivemos, caros irmãos, esta mesma comoção”, “peçamos ao Senhor que inflame o coração de cada presbítero com aquela ‘caridade pastoral’ capaz de fundir seu “eu” pessoal no de Jesus sacerdote, para assim poder imitá-lo na mais completa auto-doação”.

Caros irmãos Sacerdotes, acolhamos com alegria e com determinação este Ano Sacerdotal e agradeçamos ao Senhor, que nos oferece este especial tempo de graça. A todos vós, as minhas mais sinceras felicitações e que Deus vos abençoe muito e sempre! Durante este ano especial, proponho-me de escrever-vos todos os meses. Muito obrigado!

Cardeal Cláudio Hummes

Arcebispo Emérito de São Paulo

Prefeito da Congregação para o Clero