Entrevista com o Arcebispo Dom Mauro Piacenza 11/04/2008

Leia entrevista com o Arcebispo Dom Mauro Piacenza, Secretário da Congregação para o Clero

1. Na Quinta-feira Santa a Igreja celebra a Instituição da Eucaristia e do Sacerdócio. O que une estreitamente estas duas realidades que Cristo confiou à sua Igreja? No mistério do sacrifício eucarístico, afirma o Concílio Vaticano II, os sacerdotes exercem sua função principal. Não se pode entender o sacerdote sem a Eucaristia, nem poderia existir a Eucaristia sem o sacerdote. Segue-se que o sacerdote não pode realizar-se plenamente se a Eucaristia não constitui realmente o centro e a raiz de sua vida. Todo o esforço diário do sacerdote deve ser irradiação da Celebração Eucarística.

2. O que significa hoje, para o sacerdote, fazer memória do gesto do “lava-pés”, ou seja, servir?Para o sacerdote, o modo de prolongar a verdade do sacrifício litúrgico, convertendo-o em sacrifício de sua vida, é “servir”. O sacerdote não se pertence a si mesmo. Está a serviço do Povo de Deus, sem limites de horário, nem de calendário. Não é um funcionário, nem um empregado, mas um “consagrado”, um “Cristo” de Deus. O povo não vive em função do sacerdócio; é o sacerdote que vive em função do povo, em sua totalidade, sem jamais limitar seu serviço a um pequeno grupo. O sacerdote não pode escolher um lugar que o agrade, os métodos de trabalho que considere mais adequados, segundo a sua maneira de ser, as pessoas que lhe pareçam mais simpáticas, os horários mais cômodos, os divertimentos, ainda que sejam legítimos, quando tomam o tempo e as energias de sua missão pastoral específica. A missão remete a uma identidade, e a identidade remete à missão: iluminam-se reciprocamente.

3. O que um sacerdote tem a “oferecer” à humanidade?O sacerdote, é comovedor pensar, está sempre presente na Igreja; em todos os tempos, pela força do Espírito Santo, é instrumento essencial da permanência e da vida da Igreja. Como Cristo, o sacerdote oferece à humanidade um grande benefício: a inquietude. A inquietude que é o santo temor de Deus.

4. As circunstâncias atuais são particularmente complexas. Como devem ser afrontadas?Quando pensamos nas circunstâncias atuais e na necessidade de prepararmo-nos para afrontá-las, creio que o melhor método para responder às necessidades humanas é o de ser sacerdote segundo o Coração de Cristo. Se dirigimos um olhar para a história, vemos que, apesar de serem muito numerosas as mudanças no mundo, na sociedade, sempre é idêntico o desafio fundamental de ser radicalmente sacerdotes semelhantes a Cristo.Como demonstra a história, a Igreja pode resistir a todos os ataques, a todos os assaltos que possam lançar contra ela, as forças políticas, econômicas e culturais, mas não poderia resistir ao perigo que deriva do esquecimento das palavras de Cristo: “Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo”.É o mesmo Jesus quem assinala as consequências deste esquecimento: “Se o sal se desvirtua, como o mundo se preservará da corrupção?Com efeito, para que serveria um sacerdote tão assimilado ao mundo que se mimetizara com ele e já não fosse fermento transformador? Diante de um mundo anêmico de oração e de adoração, de verdade e de justiça, o sacerdote é antes de tudo o homem da oração, da adoração, do culto, da celebração dos santos mistérios, “diante dos homens, em nome de Cristo”. A melhor contribuição que pode dar o sacerdote à causa da justiça e da paz, é continuar sendo sempre um homem de Deus.

5. Neste dia se renovam as promessas sacerdotais. Quais são os compromissos mais urgentes e atuais que um sacerdote deveria renovar diante de Deus e dos irmãos?Creio que o primeiro compromisso é o de ser testemunha, entendido etimológicamente como martírio: um compromisso missionário motivado com a certeza renovada de que Cristo normalmente vem a nós somente “na” Igreja e “pela” Igreja, a qual prolonga Sua presença no tempo.Deve-se recordar que a Igreja somente poderá evangelizar autenticamnete as realidades “naturais” se não renuncia a sua identidade sobrenatural. Custe o que custar, deve seguir sendo o que é: realidade transcendente e mistério.É difícil, mas estimulante. A Igreja tem a tarefa “negativa” de livrar o mundo do ateísmo, e a missão “positiva” de satisfazer a necessidade irrenunciável que tem o homem, de modo consciente ou inconsciente, de realizar-se, ou seja, de ser santo.E aqui entra o sacerdote. É aqui onde intervém como um emissário de Deus para saciar a sede ardente de uma humanidade sempre em busca.

6. O sacerdote celebra a Eucaristia “in persona Christi”. Como pode um sacerdote ser digno dessa responsabilidade?Só Deus, em sua misericórdia, pode “fazer dignos” os homens de uma tarefa tão extraordinária, inclusive inaudita. O sacerdote é a imagem do Salvador: deve tratar de assemelhar-se o mais possível a Ele, deve estar disposto a dar-se, a entregar-se totalmente, de corpo e alma, vontade e coração, ao serviço de Cristo e, portanto, dos irmãos. A totalidade da oblação a Deus é a garantia da totalidade do serviço aos irmãos, é a garantia da dinâmica missionária, como a castidade garante o caráter esponsal e a grande paternidade. Em tudo isso, não se pode dar um “não”, mas um “sim” grande e libertador.Esta é a chave para entender as promessas de obediência, de castidade vivida no celibato, no compromisso de um caminho de desprendimento das coisas, das situações, de si mesmos; no clima de uma fraternidade sacerdotal intensa e sacramental. Tudo isso se compreende se existe um grande amor, na lógica gozosa da entrega. O sacerdote jamais terá uma crise de identidade, nem de solidão, nem de frustração cultural se, resistindo à tentação de confundir-se com a multidão anônima, em sua intenção, em sua retidão moral e em seu estilo, não se separa jamais do altar do sacrifício do Corpo e do Sangue de Cristo.

7. Qual deve ser a correta relação entre fiéis leigos e sacerdotes?Devem ser irmãos em meio aos irmãos, ainda que com funções essencialmente diversas. Com efeito, alguns são chamados a ser padres e outros não, mas todos certamente são chamados à santidade em Cristo.

8. Hoje se fala muito de celibato sacerdotal. O que se pode dizer a este respeito?Com relação ao sagrado celibato, encontramo-nos diante de um ícone particularmente significativo do bom Pastor, que não guarda nada para si, mas que dá tudo pelo bem do rebanho. Uma atenta reflexão cristológica permite apreciar a oportuna conveniência de associar esta prática de vida ao estado sacerdotal.Poderíamos dizer que desde os tempos Apostólicos até os nossos dias existe uma significativa continuidade na doutrina do Magistério sobre o celibato. Certamente, desta riqueza deriva uma exigência de radicalidade evangélica, que favorece de modo especial o estilo de vida “esponsal”. Brota da configuração do sacerdote com Jesus Cristo através do sacramento da Ordem. O sacerdote é chamado a levar uma vida de imitação de Cristo que o eleva ao nível dos conselhos evangélicos: a continência perfeita, a exemplo da virgindade de Cristo, lhe permite exercer mais plenamente a caridade pastoral, até o ponto de que se pode ver no sacerdote um outro Cristo, “alter Christus”.

9. E a tão discutida solidão do sacerdote?A Igreja assiste hoje a uma dissolução cada vez mais acentuada dos vínculos entre as pessoas, em todos os âmbitos sociais. Precisamente tende-se a conceber a família como um lugar de passagem ou de relações pactuais, mas sempre revocáveis. É lógico que a figura do sacerdote celibatário sofra o impacto destas inumeráveis solidões.Igualmente torna-se necessário colocar no centro da vida cristã autênticas comunidades familiares, capazes de dar esperanças e de fazer brilhar o dom da comunhão, e sua fecundidade, também necessitamos sacerdotes que saibam mostrar a fecundidade da comunhão, a fecundidade comunitária de sua “solidão” virginal.A iniciativa da Congregação para o clero, de fazer uma grande “corrente” de adoração eucarística mundial pelos sacerdotes, deve interpretar-se também a partir da perspectiva essencialmente sobrenatural de comunhão. Certamente servirá aos sacerdotes como fonte inesgotável e divina de energias missionárias, mas também servirá aos fiéis leigos para que recuperem a verdade sobre o sacerdócio ministerial católico, que de forma alguma pode se reduzir a um mero “funcionarismo pastoral”, tão somente acolhido pela sua importância social que possa ter. E não é lícito generalizar, atribuindo a todo o clero, aquilo que corresponde a responsabilidade de uma pequena parte.

10. Como se explica a crise de vocações na sociedade atual?Sempre que se fala de “crise de vocações”, igualmente quando se fala de “crise do matrimônio”, deve-se pensar com mais precisão, em uma crise que está na raiz e que origina as demais: a crise de fé.Existe um dado real que todos podem constatar: os jovens, quando se lhes abrem, com fé na graça, os amplos horizontes da integridade do seguimento de Cristo, respondem em grande número e com autêntico entusiasmo, mas quando se tenta reduzir a identidade do sacerdote e do ministério pastoral, não se sentem motivados e se produz uma progressiva deserção. Às vezes constata-se, com muita tristeza, a decadência e se buscam soluções que não são mais que premissa da decadência em si mesma.Falta a humildade da verdade: saber reconhecer os próprios erros. Falta a coragem de saber colocar em evidência também as opções que não deram fruto ou que produziram uma devastação. Portanto, não há que se justificar, escondendo-se por detrás do pretexto de “novas estruturas”. Só se pode propor uma terapia quando se faz um diagnóstico claro, sem compaixão. É preciso pedir, pedir e pedir, para que não se caia no que diz o Salmo 134: “Têm olhos e não podem ver; têm ouvidos e não podem ouvir”, com a certeza de que Deus nunca abandonará a sua Igreja e não permitirá que lhe faltem pastores “segundo seu Coração”.

Arcebispo Dom Mauro Piacenza Secretário da Congregação para o Clero

Fonte: Congregação para o Clero

"A Eucaristia: fonte de santidade no ministério sacerdotal"


CONGREGAÇÃO PARA O CLERO
CARTA DO CARDEAL DARÍO CASTRILLON HOYOS POR OCASIÃO DO DIA MUNDIAL PARA A SANTIFICAÇÃO DOS SACERDOTES

"A Eucaristia: fonte de santidade no ministério sacerdotal"
Sexta-feira 18 de Junho de 2004

Solenidade do Sagrado Coração de Jesus

Estimados amigos sacerdotes
O Dia Mundial para a Santificação dos Sacerdotes, que será celebrado no clima jubiloso da próxima Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, oferece-me a ocasião para reflectir juntamente convosco sobre o dom do nosso ministério sacerdotal, compartilhando a vossa solicitude pastoral para com todos os fiéis e toda a humanidade, e de maneira particular para com a porção do Povo de Deus, confiado aos vossos respectivos Ordinários, de quem vós sois os colaboradores solícitos e generosos.
O tema que desejo propor-vos no corrente ano coloca-se em sintonia com a Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, que o Santo Padre João Paulo II quis entregar-nos na Quinta-Feira Santa do ano passado, na circunstância do vigésimo quinto aniversário do seu Pontificado e do Ano do Rosário: "A Eucaristia: fonte e ápice de santidade no ministério sacerdotal".

1. Criados para amar

"Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo" (Lv 19, 2). O Livro do Levítico recorda-nos a graça e a finalidade de todo o fiel e, de modo particular, de cada ministro ordenado: a santidade, que é a intimidade com Deus, amor sem reservas pela Igreja e por todas as almas. A vocação ao sacerdócio "é essencialmente uma vocação à santidade, na forma que brota do sacramento da Ordem" (João Paulo II, Exortação Apostólica Pastores dabo vobis, 33). Nas circunstâncias que lhe são próprias, lá onde Deus o colocou, o sacerdote é chamado a encontrar, a conhecer e a amar Jesus Cristo no exercício do seu próprio ministério e a identificar-se cada vez mais com Ele.

Se, na iminente solenidade do Sagrado Coração de Jesus, mantivermos o nosso olhar voltado para o Senhor, para o seu único, sumo e eterno Sacerdócio, os nossos horizontes alargar-se-ão para além dos confins da nossa vida quotidiana e a nossa existência enriquecer-se-á com uma dimensão mais universal e missionária.

"Eis que vos digo: erguei o vosso olhar e contemplai os campos: eles já estão dourados para a colheita" (Jo 4, 35). Estas palavras do Senhor ressoam, mesmo nos dias de hoje, no nosso coração e mostram o imenso horizonte da missão de amor do Verbo encarnado, missão esta que se faz nossa: Ela entrega-a como herança a toda a Igreja e, de maneira específica, no seu interior, a nós que somos os seus ministros ordenados. É verdadeiramente grande o mistério de amor, de que nós, sacerdotes, somos feitos ministros!

Os Actos dos Apóstolos recordam-nos que aquele mesmo Jesus com que os Apóstolos tinham vivido, com quem haviam comido, compartilhando o cansaço de cada dia, agora continua a estar presente também na sua Igreja.

Jesus Cristo está presente na Igreja não só porque continua a atrair a si todos os fiéis junto daquele Trono de graça e de glória, que é a sua Cruz redentora (cf. Cl 1, 20), formando com todos os homens, de todos os tempos, um só Corpo, mas também porque Ele está sempre presente no tempo e de forma eminente como Chefe e Pastor que ensina, santifica e governa constantemente o seu Povo. E esta presença realiza-se através do Sacerdócio ministerial que Ele desejou instituir no seio da sua Igreja. Por isso, cada sacerdote pode repetir que foi escolhido, consagrado e enviado para fazer emergir a contemporaneidade de Jesus Cristo, de quem se torna um autêntico representante e mensageiro (cf. Congregação para o Clero, Directório para o ministério e a vida dos Presbíteros, Tota Ecclesia, de 31 de Janeiro de 1974, n. 1).

A vida de Cristo, de Quem somos portadores, Christo foroi, é como a água que corre no meio dos precipícios rochosos e da terra árida, tornando-a fecunda. Com a vinda de Jesus Cristo ao tempo e ao espaço do homem, a história deixou de ser uma terra estéril, como era antes da Encarnação, para assumir um significado e um valor de esperança universal.

Nós "não podemos permitir-nos dar ao mundo a imagem de terra árida escrevia o Santo Padre, há pouco mais de quatro anos, na Bula de Proclamação do Grande Jubileu do Ano 2000 depois de termos recebido a Palavra de Deus como chuva descida do céu; nem jamais poderemos pretender tornar-nos um único pão, se impedirmos à farinha de se amalgamar pela água, que foi derramada sobre nós (cf. Santo Ireneu, Contra as heresias, III, 17: PG 7, 930)" (João Paulo II, Incarnationis mysterium, 4).

2. Com o Coração de Cristo

Aquilo que é necessário para alcançar a felicidade não é uma vida cómoda, mas um coração apaixonado, como o de Jesus Cristo. O Coração sacratíssimos e misericordioso de Jesus, traspassado por uma lança na Cruz, em sinal de entrega total de si mesmo, constitui uma fonte inesgotável da paz verdadeira, é uma manifestação integral daquele amor oblativo e salvífico com que Ele "nos amou até ao fim" (Jo 13, 1), lançando o fundamento da amizade de Deus com os homens.

A Solenidade do Sagrado Coração de Jesus convida-nos à alegria da caridade, numa entrega de nós mesmos aos outros: "Cantai ao Senhor um cântico novo, porque Ele realizou prodígios!" (Sl 97, 1).

Caros sacerdotes, os milagres são a vossa vida, mistério de predilecção divina e dom da sua misericórdia, expressos de maneira tão completa pelo profeta Jeremias: "Antes de te formar no ventre da tua mãe, Eu te conheci; antes que tu fosses dado à luz, Eu te consagrei, para fazer de ti profeta das nações" (1, 5). Não somente o sacerdócio, mas inclusivamente o caminho de preparação para o mesmo constitui uma dádiva que, como dizia São paulo, "ninguém pode atribuir-se a si mesmo, a não ser quem é chamado por Deus" (Hb 5, 4).

Pelo sacerdócio baptismal, todos nós somos servidores de Jesus Cristo. Como diz São Paulo, na segunda Carta aos Coríntios, somos os servidores da alegria dos homens (cf. 2 Cor 1, 24). Contudo, o ministério sacerdotal recordemo-lo com as palavras do Papa Paulo VI "não é uma profissão ou um serviço qualquer, exercido em benefício da comunidade eclesial, mas sim um serviço que participa de maneira absolutamente especial e com um carácter indelével no poder do sacerdócio de Cristo, graças ao sacramento da Ordem" (Paulo VI, Mensagem aos sacerdotes no encerramento do Ano da Fé, 30 de Junho de 1968).

Os homens desejam contemplar no sacerdote o rosto de Jesus Cristo, encontrar nele a pessoa que, "constituído para o bem dos homens nas coisas que se referem a Deus" (Hb 5, 1), possa dizer juntamente com Santo Agostinho: "A nossa ciência é Cristo e a nossa sabedoria é ainda Cristo. É Ele quem infunde em nós a fé em relação às realidades temporais e é Ele quem nos revela aquelas verdades que se referem às realidades eternas" (Santo Agostinho, De Trinitate, 13, 19, 24: NBA, 4, pág. 555).

3. Mediante a Eucaristia que é a nossa força e esperança

Os Evangelhos falam-nos da iniciativa de Jesus Cristo que, caminhando sobre a água, leva socorro e alívio aos Apóstolos, que se encontram na barca agitada pelas ondas do lago de Tiberíades (cf. Mt 14, 22-32)
Trata-se de um convite a vivificar a nossa plena confiança em Cristo. Ele repete também a nós a exortação que dirigiu aos navegantes: "Coragem, sou Eu, não tenhais medo" (Mt 14, 27)! Não nos deixemos amedrontar pelas dificuldades, tenhamos confiança nele! A vocação sacerdotal, implantada com eficácia por Cristo em vós e por vós acolhida com humildade generosa, como terra fecunda, sem dúvida dará frutos abundantes.

Como Pedro, vamos também nós ao encontro de Jesus Salvador, fixando o nosso olhar no seu Rosto misericordioso: somente o olhar do Crucificado e Ressuscitado, contemplado na nossa oração e no recurso à Confissão sacramental, pode superar a força de gravidade da nossa pequenez, dos nossos limites e dos nossos pecados. São João Crisóstomo, comentando este trecho do Evangelho, recorda-o afirmando: "Quando falta a nossa cooperação, também a ajuda da parte de Deus deixa de subsistir" (Comentário ao Evangelho de São Mateus, n. 50).

Especialmente na Eucaristia, descobrimos de novo a verdade e a eficácia das palavras e da acção de Jesus Cristo: "Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro e disse-lhe: "Homem de pouca fé, por que duvidaste?"" (Mt 14, 31). O braço de Deus sustém-nos e as águas obscuras, agitadas pela nossa soberba e pelo demónio, perderão o seu poder.

É da Eucaristia que nós havemos de haurir a força da caridade de Jesus Cristo. A este propósito, na Carta Encíclica sobre a Eucaristia, o Santo Padre escreveu: "Cada esforço de santidade, cada iniciativa para realizar a missão da Igreja, cada aplicação dos planos pastorais deve extrair a força de que necessita do mistério eucarístico e orientar-se para ele como o seu ponto culminante" (João Paulo II, Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, 17 de Abril de 2003, n. 60).

Deus pede-vos, a vós sacerdotes diocesanos, missionários e religiosos, que vos prodigalizeis com entusiasmo neste ministério sagrado, em vista de redescobrir, especialmente na Eucaristia, a beleza da vossa vocação sacerdotal. Cada um se torne educador de vocações, sem ter medo de propor opções radicais na santidade.

Como afirmava o Santo Cura d'Ars, conscientes de que "o sacerdote é o amor do Coração de Jesus" (Esprit du Curé d'Ars, Maria Vianney dans ses catéchismes, ses homélies et sa conversation, Edition de Téqui, Paris, 1935, pág. 117), como deixar de recordar aqui que nada é mais exaltante do que um testemunho apaixonado da nossa própria vocação? "O Sacerdote dizia ainda São João Maria Vianney é algo tão imenso que, se ele mesmo o compreendesse, morreria" (Esprit du Curé d'Ars..., op. cit., pág. 113).

Como sentinelas da Casa de Deus, que é a Igreja, velemos a fim de que em toda a vida eclesial das nossas paróquias se reviva o encontro com Cristo crucificado e ressuscitado. Evitemos os recifes do activismo onde, por vezes, naufragaram os melhores projectos apostólicos e pastorais, e onde se tornaram infecundas muitas vidas comprometidas num serviço não adequadamente irrigado pela Palavra de Deus e pela sua presença na Eucaristia. Com as palavras do Santo Padre, repitamos: "Nos sinais humildes do pão e do vinho transubstanciados no seu corpo e sangue, Cristo caminha connosco, como nossa força e nosso viático, e torna-nos testemunhas de esperança para todos" (João Paulo II, Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, 62).

Façamos com que os fiéis cristãos consigam reviver a experiência do Cenáculo que foi, num certo sentido, o primeiro Curso formativo dos Apóstolos. No Cenáculo o Mestre, depois de ter instruído os Doze, lavou-lhes os pés e, antecipando o Sacrifício cruento da Cruz, entregou-se a si mesmo inteiramente e para sempre, nos sinais do pão e do vinho. No Cenáculo, na expectativa do Pentecostes, os Apóstolos encontravam-se "assíduos e concordes na oração, juntamente com... Maria, Mãe de Jesus" (Act 1, 14).

No corrente ano celebra-se o Sesquicentenário da definição dogmática da Imaculada Conceição de Maria, proclamada pelo Beato Papa Pio IX no dia 8 de Dezembro de 1854. Por conseguinte invoquemos com particular confiança a Bem-Aventurada Virgem Imaculada. Peçamos-lhe, a Ela, Mulher "eucarística", que sustente sempre em nós o desejo de nos identificarmos plenamente com o seu Filho, de sermos ipse Christus, alter Christus, a fim de sermos em todos os lugares arautos do Evangelho, peritos em humanidade, conhecedores do coração do homem contemporâneo, partícipes das suas alegrias e esperanças, das suas angústias e tristezas, e para sermos, ao mesmo tempo, contemplativos, apaixonados de Deus.

Dirijamo-nos a Maria, Rainha dos Apóstolos e Mãe dos sacerdotes. E peçamos-lhe que nos acompanhe ao longo do nosso caminho ministerial, como acompanhou os Apóstolos e os primeiros discípulos no Cenáculo.

A Ela, Estrela da evangelização, dirijamo-nos com confiança a fim de que, pela sua intercessão, o Senhor conceda a cada um o dom da fidelidade à vocação presbiteral. Que a Imaculada Conceição resplandeça no centro das nossas comunidades eclesiais e as transforme num sinal elevado entre os homens, "como uma cidade construída sobre um monte", e também como "uma lâmpada colocada no candeeiro, que brilhe para a todos" (cf. Mt 5, 14-15)!

Cardeal Eugênio Sales - A Vida Diocesana



O Eminentíssimo Cardeal Sales gravou este simples vídeo de meu celular para o blog, incentivando a colaboração do sacedote diocesano junto do bispo.