Cardeal Cañizares: Jesus e as crianças

Há cem anos, Pio X antecipava a idade para a primeira comunhão

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 23 de agosto de 2010 (ZENIT.org) – No contexto do centenário do decreto Quam singulari Christus amore (8 de agosto de 1910), de São Pio X – Papa que foi beatificado em 1951 e canonizado em 1954 –, publicamos a reflexão do prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, cardeal Antonio Cañizares, apresentada em L'Osservatore Romano. Bento XVI discutiu esse tema na audiência geral de quarta-feira passada.

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Completam-se agora cem anos da promulgação do decreto Quam singulari, do Papa São Pio X, pelo qual, seguindo fielmente os ensinamentos do Concílio IV de Latrão e os de Trento, estabeleceu a primeira comunhão e primeira confissão das crianças à idade do uso de razão, quer dizer, em torno dos sete anos.

Esta disposição do santo Papa supunha um caminho muito importante na prática pastoral e na concepção habitual de então, que por razões diversas, tinha atrasado a idades posteriores este acontecimento tão transcendente para o homem.

Com este decreto, São Pio X, o grande Papa da piedade e da participação eucarística, com o desejo de renovação eclesial que inspirou seu pontificado, ensinou a toda Igreja o sentido, lugar, valor e centralidade da sagrada comunhão para a vida de todos os batizados, incluídas as crianças.

Com este gesto, ao mesmo tempo, destacava e recordava a todos o amor e a predileção de Jesus pelas crianças, que, além de fazer-se criança, manifestou seu amor por elas com gestos e palavras, até o ponto de dizer: “se não forem como as crianças, não entrarão no reino dos céus”; “deixai que as crianças venham a mim, não as impeçam, porque delas é o reino dos céus”. Elas são sempre amigas muito especiais do Senhor.

Com a mesma predileção, com o mesmo olhar amoroso e com a mesma atenção e solicitude singular, a Igreja olha, atende, cuida e se preocupa com as crianças. Por isso, ela, como mãe amorosa, quer para seus filhos pequenos, os primeiro no reino de Deus, que, com as devidas disposições, participem logo do melhor e mais importante que Jesus nos deixou em sua memória: seu Corpo e seu Sangue, o Pão da vida. Pela sagrada comunhão, Jesus em pessoa, Filho de Deus, entra dentro da vida de quem o recebe e coloca sua morada nele. Não há maior amor, nem maior presente. Isso é um dom de amor que vale mais que todo o restante que se possa dar à vida de cada homem. Estar com o Senhor; que o Senhor esteja em nós, dentro de nós; que nos alimente e sacie; que nos tome pelas mãos e nos guie; que nos vivifique e permaneçamos fielmente em comunhão e amizade com ele: é sem dúvida o mais importante, o mais gratificante, o mais gozoso que pode acontecer a alguém.

Como atrasar, pois, às crianças, este encontro com Jesus, elas que são seus melhores amigos, as especialmente queridas por Deus, o Pai, objeto de especial cuidado da Igreja, mãe santa?

A primeira comunhão das crianças é como o início de um caminho junto a Jesus, em comunhão com ele: o início de uma amizade destinada a durar e se fortalecer toda a vida com ele; começo de um caminho, porque com Jesus, unidos sem nos separar, procedemos bem e a vida se faz boa e virtuosa; com ele dentro de nós podemos ser sem dúvida pessoas melhores. Sua presença entre nós e conosco é luz, vida e pão no caminho. O encontro com Jesus é a força de que necessitamos para viver com alegria e esperança. Não podemos, atrasando a primeira comunhão, privar as crianças – a alma e o espírito das crianças – desta graça, obra e presença de Jesus, deste encontro de amizade com ele, desta participação singular do próprio Jesus e deste alimento do céu para poder amadurecer e chegar assim à plenitude.

Todos, especialmente as crianças, têm necessidade do Pão descido do céu, porque também a alma deve se nutrir e não bastam nossas conquistas, a ciência, as coisas técnicas, por muito importantes que sejam. Necessitamos de Cristo para crescer e amadurecer em nossas vidas. Isso é ainda mais importante neste tempo que vivemos e o é de modo especial para as crianças, frequentemente objeto, infelizmente, de manipulação e de destruição de sua grandeza, pureza, simplicidade, “santidade”, capacidade de Deus e de amor que as constitui. As crianças vivem imersas em mil dificuldades, envolvidas em um ambiente difícil que não lhes favorece ser o que Deus quer delas; muitas são vítimas da crise da família. Nesse clima ainda lhes é mais necessário o encontro, a amizade, a união com Jesus, sua presença e sua força. São, por sua alma limpa e aberta, as mais bem dispostas, sem dúvida, para isso.

O centenário do decreto Quam singulari é uma ocasião providencial para recordar e insistir no ato de receber a primeira comunhão quando as crianças tiverem a idade do uso de razão, que hoje, inclusive, parece se antecipar. Não é recomendável, por isso, a prática que se está introduzindo cada dia mais de atrasar a idade da primeira comunhão. Ao contrário, é ainda mais necessário o ato de adiantá-la. Perante tantas coisas que estão acontecendo com as crianças, e o ambiente tão adverso em que crescem, não as privemos do dom de Deus: este pode ser, é a garantia de seu desenvolvimento como filhos de Deus, engendrado pelos sacramentos da iniciação cristã no seio da santa mãe Igreja. A graça do dom de Deus é mais poderosa que nossas obras e que nossos planos e programas. Quando São Pio X adiantou a idade da primeira comunhão, também insistiu na necessidade de uma boa formação, de uma boa catequese. Hoje devemos acompanhar este ato de adiantar a idade com uma nova e vigorosa pastoral de iniciação cristã. As linhas marcadas pelo Catecismo da Igreja Católica e o Diretório geral para a catequese são guias imprescindíveis nesta nova pastoral ou renovada da iniciação cristã tão fundamental para o futuro da Igreja, a mãe que, com o auxílio da graça do espírito, engendra e amadurece seus filhos pelos sacramentos da iniciação, pela catequese, e por toda ação pastoral que acompanha. Assim, pois, não fechemos hoje nossos ouvidos às palavras de Jesus: “deixai que as crianças venham a mim, não as impeçam”. Ele quer estar nelas e com elas, porque “das crianças e dos que são como elas é o reino de Deus”.

Segundo livro do Papa sobre Jesus chegará às livrarias em março

Apresentadas as “Opera Omnia” de Ratzinger sobre a liturgia cristã

RIMINI, terça-feira, 24 de agosto de 2010 (ZENIT.org) – O próximo livro de Bento XVI sobre a vida de Jesus chegará às livrarias, em vários idiomas, no primeiro domingo da Quaresma, 13 de março. Foi o que afirmou ontem à Rádio Vaticano Giuseppe Costa, diretor da Libreria Editrice Vaticana.
Este esperado segundo volume, que se centra na paixão e morte de Jesus, encontra-se atualmente em processo de tradução para os diferentes idiomas. Será entregue aos editores no dia 15 de janeiro, para preparar as respectivas edições nacionais.

Segundo Costa, no momento, chegou-se a um acordo com 18 editoras, ainda que não se descartam mais pedidos nos próximos meses.

O Papa – segundo confirmou o porta-voz vaticano, Federico Lombardi – trabalha atualmente no terceiro volume sobre a vida de Jesus, dedicado à infância de Cristo.

Giuseppe Costa, responsável editorial dos textos vaticanos, encontrava-se estes dias em Rimini (Itália), para a apresentação do primeiro volume da Opera Omnia (obra completa) de Joseph Ratzinger.

A apresentação aconteceu durante o festival conhecido como Meeting de Rimini, organizado pelo movimento católico Comunhão e Libertação, que todos os anos reúne milhares de pessoas.

Esta Opera Omnia consta de 16 volumes que recolhem todos os escritos e intervenções de Joseph Ratzinger, antes de ser eleito Papa, sobre a importância da liturgia na vida cristã.

A obra traz, explicou Costa, “não seus ensinamentos como pontífice, mas seus escritos, entrevistas e ensinamentos como cardeal. Esta Opera Omnia encerra quando ele foi eleito Papa”.

Sobre o conteúdo das obras, o bispo de Ratisbona, Dom Gerhard Müller, encarregado da edição alemã, explicou à emissora vaticana a importância que a liturgia tem no pensamento de Joseph Ratzinger.

“A liturgia é a participação sacramental na vida de Deus. Por isso, não é só um ‘teatro’, uma autoexpressão do coração ou da ideia da subjetividade, mas é a expressão objetiva, real, concreta, do contato com o próprio Deus, que quer conviver conosco, suas criaturas”, afirmou o prelado.

Ciência: hábito mental da verdade; teologia sagrada: sabedoria suprema (I)


Sidney Silveira
 
Em sentido lato, por ciência entende-se o conhecimento sistemático nalguma matéria. Aristóteles já tinha noção disso ao afirmar que a ciência é o conhecimento certo de uma coisa a partir de suas causas — daí ser ela para o Estagirita propriamente demonstrativa, ou seja: é próprio da ciência demonstrar a verdade. Mas será que, com estas observações, alcançamos verdadeiramente o proprium da ciência?

Lembremos que o próprio é um dos cinco predicáveis (os outros são gênero, espécie, diferença específica e acidentes); e é o próprio que melhor nos dá notícia da essência dos entes, na exata medida em que só conhecemos a essência deles — e imperfeitamente! — a partir de suas operações formais próprias. Não é o caso de enumerar aqui todas as características do predicável próprio e de suas relações com a essência, mas, para o que nos ocupa, interessa-nos definir se o mais próprio da ciência é mesmo ser demonstrativa, ou se há outras propriedades que descortinem melhor a essência disto a que chamamos ciência. Recorramos a Santo Tomás, para ver o que diz.

Para o Aquinate, não obstante toda ciência ser o conhecimento certíssimo de uma coisa, partir de um conjunto de princípios e ter um objeto formal próprio (e de também ser demonstrativa), ela é, antes de tudo, habitus. E o hábito é, no glossário tomista, o intermediário entre a potência e o ato. Aqui, trata-se de uma qualidade adquirida pela alma intelectiva ao atualizar habitualmente determinada ciência. Isto nos encaminha a uma nova definição: a ciência é o conhecimento habitual da verdade*. Ou, se se preferir outra fórmula, a que costumo usar — por meio de uma analogia de atribuição — é a seguinte: a ciência é o hábito mental da verdade.

Advirta-se que não estamos confundindo a essência da ciência (conhecimento) com o seu próprio (o hábito mental desse conhecimento); este deriva daquela, pois, como conceitua Aristóteles (Tópicos, I, 5-6), “próprio é o que, embora não exprima a essência do sujeito, só a ele pertence”. Neste sentido, usemos o exemplo clássico: a risibilidade é propriamente humana, ou seja, é próprio do homem sorrir. Dos animais irracionais e dos anjos só podemos dizer que sorriem por uma de analogia de atribuição extrínseca, mas este é outro assunto.

Definidos os termos, registremos que, segundo Santo Tomás, a teologia sagrada é ciência, e no mais elevado sentido. Ela é habitus; é demonstrativa; tem princípios dos quais parte; e tem um objeto formal próprio: a deidade obscure per fidem cognita. Ou seja: a vida recôndita de Deus que só conhecemos pela fé. Para o homem no atual estado (ferido pelo pecado original), acima dessa teologia há apenas a ciência do próprio Deus e a dos bem-aventurados que conhecem a deidade clare visa, ou seja, pela visão beatífica.

Princípios dos quais parte a ciência teológica
 
Toda ciência deduz as suas conclusões partindo de princípios evidentes. Ora, a ciência teológica parte de princípios não-evidentes (os artigos da fé, que são recusados por muitos). Logo, não é ciência. A esta objeção (Suma, I, q.1, art. 2) Santo Tomás responde que os princípios de qualquer ciência ou são evidentes simpliciter (por si) ou secundum quid (buscados de outra ciência superior. Por ex.: a perspectiva depende dos princípios subministrados pela geometria). No caso da ciência teológica, ela parte de um princípio buscado em uma ciência superior: a de Deus, que conhecemos pela Revelação. Aqui, novamente, vale lembrar a importância do predicável proprium, que tantas equivocidades evita. Em resumo, é próprio de uma ciência não partir apenas de princípios evidentes simpliciter, mas partir de princípios (sejam evidentes ou buscados de outra ciência). Em suma, a primeira premissa do argumento em contrário — a de que os princípios de toda e qualquer ciência são evidentes simpliciter — cai por terra.
(continua)

* Não confundamos este conhecimento habitual com aquilo que hoje muitos chamam de consciência, pois a consciência, como demonstrou de forma apodítica Santo Tomás no De Veritate, é ato e não hábito. É a aplicação de uma ciência a algo determinado (cum alio scientia).