"Será que vou ver os padres de batina antes de morrer?"

Atravesando a rua em Copacabana, no Rio de Janeiro, um senhor de mais de oitenta anos de idade me disse comovido: "Por favor, não deixe de usar a batina! Peço a DEUS que o Papa Bento XVI faça algo para os padres usarem batina. Desculpe te parar assim, meu filho, mas é um colírio para os olhos ver seminarista e padres de batina!"
E mais uma vez disse: "É um colírio para os meus olhos! Será que vou ver os padres de batina antes de morrer? Já tenho mais de oitenta anos, sou Católico Apostólico Romano, gostaria muito que isso acontecesse...". Despediu-se e prometeu-me rezar pela minha vocação.

Não quero aqui sentimentalizar o uso do hábito eclesiástico. Não pretendo discutir a obrigação do mesmo. Apenas não pude conter o pedido comovido de um senhor de mais de oitenta anos.

No início do mês de Julho fui em missão para Barretos - SP (interior de SP), lá Padre André um sacerdote muito experimentado, conhecido por sua santidade, disse-me o mesmo; as palavras eram idênticas.

Acontece que S.S. Bento XVI nada precisa pedir. O Código já diz, as Cartas do Servo de DEUS João Paulo II e Bento XVI já nos dizem.


Rezemos para que os Padres e Seminaristas voltem a usar o hábito eclesiástico.

LAVS DEO!

A ABERTURA DO ANO SACERDOTAL

Caros Sacerdotes,

Um acontecimento extraordinário, assinalado pelo sopro do Espírito Santo, cheio de esperança, de alegria e de caridade pastoral. Assim foi a abertura do Ano Sacerdotal com o Santo Padre Bento XVI, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, durante a celebração das segundas Vésperas da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, no dia 19 de junho último. A Basílica estava repleta: participaram 32 Cardeais, muitos Bispos, Prelados, mas, sobretudo, uma multidão de sacerdotes, muitos religiosos e leigos. O clima era de intensa devoção, piedade e escuta do Senhor. Ao final das Vésperas, houve a Bênção Eucarística, precedida por uma expressiva adoração silenciosa. Realmente, um silêncio absoluto e orante difundiu-se em meio àquela multidão ajoelhada: era impossível não se comover profundamente e não sentir a forte presença de Jesus Cristo, o Bom Pastor, que confirma os seus sacerdotes e toda a Igreja.

Pouco antes da Oração das Vésperas, entrou em procissão na Basílica de São Pedro, a relíquia do coração de São João Maria Vianney, trazida de Ars. O Santo Padre, logo após o seu ingresso para iniciar a cerimônia, foi até a relíquia, fazendo uma significativa oração ao Santo Cura d’Ars, em favor dos sacerdotes.

Na homilia das Vésperas, o Papa falou da profunda relação existente entre o Sagrado Coração de Jesus, os sacerdotes e o Santo Cura d’Ars, apresentando-o como “modelo e protetor de todos nós sacerdotes, e, de modo particular, dos párocos”. Era evidente a alegria do Papa e como o seu rosto resplandecia. Todos os seus gestos eram muito acolhedores para com a assembléia, mas, ao mesmo tempo, transparecia a centralidade do grande mistério de Deus. Comentando um texto do profeta Oséias, disse: “O coração de Deus estremece de compaixão! Na solenidade do Sagrado Coração de Jesus, a Igreja apresenta este mistério à nossa contemplação, o mistério do coração de um Deus que se comove e derrama todo o seu amor sobre a humanidade”. De maneira similar, o coração de cada sacerdote deve ser um coração que se comove diante das chagas e dos sofrimentos espirituais, morais e corporais dos seres humanos e de cada homem e mulher, e, por isso, um coração que versa todo o seu amor sobre a humanidade, a exemplo do Bom Pastor, Jesus. O Santo Cura d’Ars, durante a sua vida sacerdotal, era impulsionado por esta comoção e amor. Acrescenta o Papa: “Seu Coração divino apela então ao nosso coração; convida-nos a sair de nós mesmos e a abandonar nossas seguranças humanas para confiarmos Nele e, seguindo seu exemplo, a fazer de nós mesmos um dom de amor sem reservas”.

Dessa forma, o Papa nos impele, a nós sacerdotes, a não duvidarmos e a sermos fortes nesta doação “sem reservas”, no seguimento de Jesus como discípulos muito próximos a Ele, confiantes e prontos a segui-Lo para onde quer que nos conduza, desejosos de sermos semelhantes ao Senhor. Neste “sem reservas”, situa-se também a vida celibatária. Neste contexto, disse o Papa: “Se é verdade que o convite de Jesus a ‘permanecer em seu amor’ (cf. João 15, 9) dirige-se a todo batizado, na festa do Sagrado Coração de Jesus, Dia de Santificação Sacerdotal, este convite ressoa com maior força para nós, sacerdotes, em particular nesta tarde, solene início do Ano Sacerdotal, que convoquei por ocasião do 150º aniversário da morte do Santo Cura de Ars”.

O Santo Padre não poderia deixar de fazer referência ao triste fato dos sacerdotes que não são fiéis e, em alguns casos particulares, envolvidos em delitos muito graves. Assim afirmou: “Como esquecer que nada faz sofrer mais a Igreja, Corpo de Cristo, do que os pecados dos seus pastores, sobretudo daqueles que se convertem em “ladrões de ovelhas” (João 10, 1ss), seja porque as desviam com suas doutrinas privadas, seja porque as atam com laços de pecado e de morte? Também a nós, queridos sacerdotes, aplica-se o chamado à conversão e a recorrer à Misericórdia Divina, e igualmente devemos dirigir com humildade incessante a súplica ao Coração de Jesus para que nos preserve do terrível risco de causar dano àqueles a quem devemos salvar”.

Na conclusão de sua homilia, o Santo Padre nos estimula a buscar o caminho da santidade: “A Igreja tem necessidade de sacerdotes santos, de ministros que ajudem os fiéis a experimentar o amor misericordioso do Senhor e sejam suas testemunhas convictas”, e uma vez mais, volta a falar com grande amor ao nosso coração sacerdotal, da comoção que faz o coração de Deus estremecer. Um Deus que nos ama e quer nos salvar, uma comoção que também deve encher o coração de cada sacerdote: “Cultivemos, caros irmãos, esta mesma comoção”, “peçamos ao Senhor que inflame o coração de cada presbítero com aquela ‘caridade pastoral’ capaz de fundir seu “eu” pessoal no de Jesus sacerdote, para assim poder imitá-lo na mais completa auto-doação”.

Caros irmãos Sacerdotes, acolhamos com alegria e com determinação este Ano Sacerdotal e agradeçamos ao Senhor, que nos oferece este especial tempo de graça. A todos vós, as minhas mais sinceras felicitações e que Deus vos abençoe muito e sempre! Durante este ano especial, proponho-me de escrever-vos todos os meses. Muito obrigado!

Cardeal Cláudio Hummes

Arcebispo Emérito de São Paulo

Prefeito da Congregação para o Clero

Apóstolos por vocação - Do Ano Paulino ao Ano Sacerdotal: o fio condutor da missão

V. Ex.ª Rev.ma Dom Mauro Piacenza

Secretário da Congregação para o Clero

Na audiência concedida aos participantes da Assembléia Plenária da Congregação para o Clero, no dia 16 de março último, o Santo Padre Bento XVI proclamou um especial Ano Sacerdotal, que vai da próxima Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, no dia 19 de junho, à mesma celebração no ano de 2010. A Plenária da Congregação para o Clero teve como tema: “A identidade missionária do presbítero na Igreja, como dimensão intrínseca do exercício dos tria munera”. Naquele contexto, o Papa recordou o caráter indispensável da “tensão para a perfeição moral, que deve habitar cada coração autenticamente sacerdotal”.

Justamente pensando em “favorecer esta tensão dos sacerdotes para a perfeição espiritual da qual sobretudo depende a eficácia do seu ministério”, foi proclamado o especial Ano dedicado aos sacerdotes. O Ano Paulino, que se encerrará no próximo dia 29 de junho, passará ao Ano Sacerdotal o seu testemunho, em um providencial itinerário marcado pelo sinal da continuidade e do necessário aprofundamento de uma das “urgências” do nosso tempo: a missão.

No 150º aniversário do dies natalis de São João Maria Vianney, o Cura d’Ars, a Igreja se reúne em torno aos seus sacerdotes para redescobrir a sua presença fecunda e para proclamar, uma vez mais, com a alegria cristã, o seu essencial e ontologicamente distinto ministério, dentro da missão universal da Igreja, da qual todos os batizados fazem parte.

O Ano Sacerdotal, como querido pelo Santo Padre, não será um ano “reservado aos sacerdotes”, mas para toda a Igreja. Em cada um dos seus membros, ela é chamada a descobrir, à luz da tensão missionária que lhe é própria, a grandeza do dom que o Senhor quis deixar com o ministério sacerdotal. Recordou o Papa: “Se a inteira Igreja é missionária e se todo cristão, pela força do Batismo e da Confirmação, quase ex officio (cfr. CCC, 1305) recebe o mandato de professar publicamente a fé, o sacerdócio ministerial, também a partir deste ponto de vista, distingue-se ontologicamente, e não só de grau, do sacerdócio batismal, também chamado de sacerdócio comum” (Bento XVI, Discurso aos participantes da Plenária do Clero, 16-III-2009).

A força da missão nasce unicamente de um coração renovado pelo encontro com Cristo ressuscitado, como ocorreu com São Paulo. Um encontro no qual o Senhor Jesus não seja só conhecido de maneira entusiástica ou recebido intelectualmente, mas seja realmente acolhido como a extraordinária e fascinante “resposta do Pai” às aspirações do coração ferido do homem, do qual provém, na extraordinária presença humana e divina do Redentor, a única e adequada correspondência ao próprio eu, ao próprio humano e misterioso desígnio de salvação.

O coração de São Paulo, atingido pela beleza de Cristo, bem como o coração de São João Maria Vianney –, que no próximo dia 19 de junho será trazido à Basílica papal de São Pedro no Vaticano e exposto à veneração dos sacerdotes e fiéis leigos – são testemunhas da força arrasadora, da origem da missão eclesial.

O Ano Sacerdotal, celebrado em todas as Dioceses do mundo, deverá ser uma ocasião fecunda para redescobrir a identidade dos ministros sagrados que, por sua vez, encontra suas raízes no mandato apostólico e que “impele os sacerdotes a estar presentes e ser identificáveis e reconhecíveis quer pelo juízo de fé, quer pelas virtudes pessoais, quer também pelo hábito, nos âmbitos da cultura e da caridade, desde sempre no coração da missão da Igreja” (Id.).

Na fidelidade à ininterrupta tradição eclesial e na atenta escuta das profundas exigências do coração do homem, é preciso corresponder concretamente ao chamado bíblico – “Fortificai as mãos desfalecidas, robustecei os joelhos vacilantes” (Is. 35,3) – para que se possa continuar a afirmar, com verdade e convicção cheia de confiança “àqueles que têm o coração perturbado: Tomai ânimo, não temais! Eis o vosso Deus!” (Is. 35,4). Mostrar Deus ao mundo: esta foi a missão do Apóstolo Paulo, esta é a missão e o sentido mais profundo do ministério sacerdotal na Igreja para o mundo.

A missão – como bem sabia São Paulo, e foi vivida por São João Maria Vianney no seu próprio ministério de “participação” vicária – encontra o seu “conteúdo” e “método” em Cristo e na sua encarnação salvífica. A este propósito afirmou o Santo Padre: “No mistério da Encarnação do Verbo, no fato que Deus se fez homem como nós, encontra-se o conteúdo e o método do anúncio cristão”. Neste sentido, é urgente – com a contribuição da preciosa herança deixada pelo Ano Paulino, com aquela do próximo Ano Sacerdotal e com o aprofundamento constante da formação inicial e permanente do clero – afastar toda tentação de “descontinuidade”, redescobrindo a beleza e a harmonia da única história sagrada e salvífica de Deus com os homens, através do seu Corpo que é a Igreja e da unidade do ministério sacerdotal e apostólico que, ontem, hoje e sempre, na mesma Igreja, consiste em anunciar a Palavra de verdade, celebrar quotidianamente e com devoção a Eucaristia, em obediência ao mandamento do Senhor (Lc. 22,19), e de administrar o tesouro inestimável de graça da Divina Misericórdia.

A feliz e providencial iniciativa do Santo Padre de proclamar um Ano Sacerdotal, encontra a mais ampla, convicta e generosa adesão, primeiramente da Congregação para o Clero e, certamente, de todo o Episcopado mundial que vê, também nesta iniciativa, a ocasião propícia para realmente imprimir um novo vigor na mais urgente de todas as missões: a solicitude pelas vocações sacerdotais.

Portanto, será um Ano a ser vivido sob a insígnia da continuidade e do aprofundamento: continuidade em olhar com grande entusiasmo o chamado apostólico e a missão, e aprofundamento em especificar a missão, tendo como objetivo o ministério sacerdotal.