Na Basílica de São Pedro, Bento XVI inaugurou o Ano sacerdotal com a celebração das segundas Vésperas

Bento XVI inaugurou o Ano sacerdotal proclamado por ocasião do sesquicentenário do "dies natalis" de São João Maria Vianney, o Cura d'Ars presidindo à celebração das segundas Vésperas da solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus. Durante a celebração, oficiada na Basílica de São Pedro na tarde de 19 de Junho dia de santificação sacerdotal o Papa proferiu esta homilia.

Estimados irmãos e irmãs
Na antífona ao Magnificat, daqui a pouco entoaremos: "O Senhor recebeu-nos no seu coração Suscepit nos Dominus in sinum et cor suum". No Antigo Testamento fala-se 26 vezes do coração de Deus, considerado como o órgão da sua vontade: o homem é julgado em relação ao coração de Deus. Por causa da dor que o seu coração sente pelos pecados do mundo, Deus decide o dilúvio, mas depois comove-se diante da debilidade humana e perdoa. Além disso, há um trecho veterotestamentário em que o tema do coração de Deus se encontra expresso de modo absolutamente claro: é no capítulo 11 do livro do profeta Oseias, onde os primeiros versículos descrevem a dimensão do amor com que o Senhor se dirigiu a Israel, na aurora da sua história: "Quando Israel ainda era menino, Eu o amei, e do Egipto chamei o meu filho" (v. 1). Na verdade, à incansável predilecção divina, Israel responde com indiferença e até com ingratidão. "Quanto mais os chamava o Senhor é obrigado a constatar mais eles se afastavam de mim" (v. 2). Todavia, Ele nunca abandona Israel nas mãos dos inimigos, pois "o meu coração observa o Criador do universo comove-se dentro de mim, comove-se a minha compaixão" (v. 8).
O coração de Deus comove-se! Na hodierna solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus, a Igreja oferece à nossa contemplação este mistério, o mistério do coração de um Deus que se comove e derrama todo o seu amor sobre a humanidade. Um amor misterioso, que nos textos do Novo Testamento nos é revelado como paixão incomensurável pelo homem. Ele não se rende perante a ingratidão, e nem sequer diante da rejeição do povo que Ele escolheu para si; pelo contrário, com misericórdia infinita, envia ao mundo o seu Filho, o Unigénito, para que assuma sobre si o destino do amor aniquilado a fim de que, derrotando o poder do mal e da morte, possa restituir dignidade de filhos aos seres humanos, que o pecado tornou escravos. Tudo isto a caro preço: o Filho Unigénito do Pai imola-se na cruz: "Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim" (cf. Jo 13, 1). Símbolo de tal amor, que vai além da morte é o seu lado traspassado por uma lança. A este propósito, a testemunha ocular, o Apóstolo João, afirma: "Um dos soldados perfurou-lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água" (cf. Jo 19, 34).
Amados irmãos e irmãs, obrigado porque, respondendo ao meu convite, viestes numerosos a esta celebração com que entramos no Ano sacerdotal. Saúdo os Senhores Cardeais e os Bispos, de modo particular o Cardeal Prefeito e o Secretário da Congregação para o Clero, juntamente com os seus colaboradores, e o Bispo de Ars. Saúdo os sacerdotes e os seminaristas dos vários seminários e colégios de Roma; os religiosos, as religiosas e todos os fiéis. Dirijo uma saudação especial a Sua Beatitude Ignace Youssef Younan, Patriarca de Antioquia dos Sírios, vindo a Roma para se encontrar comigo e significar publicamente a "ecclesiastica communio", que lhe concedi.
Diletos irmãos e irmãs, detenhamo-nos em conjunto para contemplar o Coração traspassado do Crucificado. Há pouco ouvimos mais uma vez, na breve leitura tirada da Carta de São Paulo aos Efésios que "Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, estando nós mortos pelas nossas culpas, deu-nos a vida juntamente com Cristo... Com Ele nos ressuscitou e nos fez sentar lá nos Céus, em Cristo Jesus" (Ef 2, 4-6). No Coração de Jesus está expresso o núcleo essencial do cristianismo, em Cristo foi-nos revelada e comunicada toda a novidade revolucionária do Evangelho: o Amor que nos salva e nos faz viver já na eternidade de Deus. O evangelista João escreve: "Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 6). Então, o seu Coração divino chama o nosso coração; convida-nos a sair de nós mesmos, a abandonar as nossas seguranças humanas para confiar nele e, seguindo o seu exemplo, a fazer de nós mesmos um dom de amor sem reservas.
Se é verdade que o convite de Jesus, a "permanecer no seu amor" (cf. Jo 15, 9) é para cada batizado, na solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus, dia de santificação sacerdotal, tal convite ressoa com maior vigor para nós, sacerdotes, de modo particular nesta tarde, solene início do Ano sacerdotal, por mim desejado por ocasião do sesquicentenário da morte do Santo Cura d'Ars. Vem-me imediatamente ao pensamento uma sua bonita e comovedora afirmação, citada no Catecismo da Igreja Católica: "O sacerdócio é o amor do Coração de Jesus" (n. 1589). Como não recordar com emoção que directamente deste Coração brotou o dom do nosso ministério sacerdotal? Como esquecer que nós, presbíteros, fomos consagrados para servir, humilde e respeitavelmente, o sacerdócio comum dos fiéis? A nossa missão é indispensável para a Igreja e para o mundo, que requer plena fidelidade a Cristo e união incessante com Ele; ou seja, exige que tendamos constantemente para a santidade, como fez São João Maria Vianney. Queridos irmãos sacerdotes, na Carta que vos dirigi para este Ano jubilar especial, desejei salientar alguns aspectos que qualificam o nosso ministério, fazendo referência ao exemplo e ao ensinamento do Santo Cura d'Ars, modelo e protector de todos os presbíteros, e em particular dos párocos. Que este meu escrito vos sirva de ajuda e de encorajamento para fazer deste Ano uma ocasião propícia para crescer na intimidade com Jesus, que conta connosco, seus ministros, para difundir e consolidar o seu Reino. E, por conseguinte, "a exemplo do Santo Cura d'Ars assim concluí a minha Carta deixai-vos conquistar por Ele e também vós sereis, no mundo de hoje, mensageiros de esperança, de reconciliação e de paz".
Deixar-se conquistar plenamente por Cristo! Esta foi a finalidade de toda a vida de São Paulo, a quem dirigimos a nossa atenção durante o Ano paulino que já está próximo do seu encerramento; esta foi a meta de todo o ministério do Santo Cura d'Ars, que invocaremos durante o Ano sacerdotal; este seja também o objectivo principal de cada um de nós. Para ser ministros ao serviço do Evangelho, é certamente útil o estudo com uma formação pastoral atenta e permanente, mas é ainda mais necessária a "ciência do amor", que só se aprende de "coração a coração" com Cristo. Com efeito, é Ele que nos chama a partir o pão do seu amor, para perdoar os pecados e para guiar o rebanho em seu nome. Precisamente por isso nunca devemos afastar-nos da nascente do Amor que é o seu Coração trespassado na cruz.
Só assim seremos capazes de cooperar eficazmente para o misterioso "desígnio do Pai", que consiste em "fazer de Cristo o coração do mundo"! Desígnio que se realiza na história, na medida em que Cristo se torna o Coração dos corações humanos, começando a partir daqueles que são chamados a estar mais próximos dele, precisamente os sacerdotes. Chamam-nos a este compromisso constante as "promessas sacerdotais", que pronunciámos no dia da nossa Ordenação e que renovamos todos os anos na Quinta-Feira Santa, na Missa crismal. Até as nossas carências, os nossos limites e debilidades devem reconduzir-nos ao Coração de Jesus. Com efeito, é verdade que os pecadores, contemplando-O, devem aprender dele a necessária "dor dos pecados" que os reconduza ao Pai, isto vale ainda mais para os ministros sagrados. Como esquecer, a este propósito, que nada faz sofrer tanto a Igreja, Corpo de Cristo, como os pecados dos seus pastores, sobretudo daqueles que se transformam em "ladrões de ovelhas" (Jo 10, 1 ss.), porque as desviam com as suas doutrinas particulares, ou porque as prendem com laços de pecado e de morte? Estimados sacerdotes, também para nós é válido o apelo à conversão e ao recurso à Misericórdia Divina, e devemos igualmente dirigir com humildade uma súplica urgente e incessante ao Coração de Jesus, para que nos preserve do terrível risco de prejudicar aqueles que somos chamados a salvar.
Há pouco pude venerar, na Capela do Coro, a relíquia do Santo Cura d'Ars: o seu coração. Um coração inflamado de amor divino, que se comovia ao pensamento da dignidade do sacerdote e falava aos fiéis com expressões sensibilizadoras e sublimes, afirmando que "depois de Deus, o sacerdote é tudo! ... Ele mesmo não se compreenderá bem a si mesmo, a não ser no céu" (cf. Carta para o Ano sacerdotal, pág. 2). Amados irmãos, cultivemos esta mesma comoção, quer para cumprir o nosso ministério com generosidade e dedicação, quer para conservar na alma um verdadeiro "temor de Deus": o temor de poder privar de tanto bem, por nossa negligência ou culpa, as almas que nos são confiadas, ou de poder Deus não queira! prejudicá-las. A Igreja tem necessidade de sacerdotes santos; de ministros que ajudem os fiéis a experimentar o amor misericordioso do Senhor e sejam suas testemunhas convictas. Na adoração eucarística, que se seguirá à celebração das Vésperas, pediremos ao Senhor que inflame o coração de cada presbítero com a "caridade pastoral" capaz de assimilar o seu pessoal "eu" ao de Jesus Sacerdote, de maneira a poder imitá-lo na mais completa autodoação. Que nos obtenha esta graça a Virgem Maria, cujo Coração Imaculado contemplaremos amanhã com fé viva. Para Ela, o Santo Cura d'Ars nutria uma devoção filial, a tal ponto que em 1836, antecipando a proclamação do Dogma da Imaculada Conceição, já tinha consagrado a sua paróquia a Maria, "concebida sem pecado". E conservou o hábito de renovar com frequência esta oferta da paróquia à Virgem Santa, ensinando aos fiéis que "era suficiente dirigir-se a Ela para ser atendidos", pelo simples motivo que Ela "deseja sobretudo ver-nos felizes". Que nos acompanhe a Virgem Santa, nossa Mãe, no Ano sacerdotal que hoje inauguramos, a fim de que possamos ser guias sólidos e iluminados para os fiéis que o Senhor confia aos nossos cuidados pastorais. Amém!

São Gaspar del Búfalo


Nasceu em 6 de janeiro de 1786 em Roma, Itália, filho de Antônio del Bufalo um “chef” do principe Altieri e de Annunzaiata Quartieroni. Quando criança sofreu de problemas oculares que quase o cegaram.Ele foi curado em 1788 em seguida a intensas orações a São Francisco de Assis. Ele estudou no Colégio Romano e pretendia se tornar um jesuíta. Foi presidente da recem instituída Ordem Catecista da Escola de Santa Maria del Painto com a idade de 19. Ordenado em 31 de julho de 1808. Em 23 de outubro ele e três amigos, Frei Bonanni e Frei Santelli e Frei Gonnelli fundaram o Oratório de Santa Maria em Vincis. Em 8 de dezembro de 1808 ele fundou com o Padre Albertini a Confraria do Precioso Sangue de Jesus em San Nicola.

Seguindo-se a queda de Roma aos franceses em 1809, e sendo o Estado Papal suprimido em 17 de maio, o Papa Pio VII foi deportado em 6 de julho e os padres foram ordenados a prestarem voto de lealdade a Napoleão. Gaspar recusou-se e no dia 13 de junho de 1810 foi exilado por 5 anos com vários padres para Piacenza e de lá para Bolonha .Em 13 de setembro de 1811 ele recusou-se uma segunda vez em fazer o voto de lealdade e foi enviado para a prisão de San Giovani em Imola e depois para a fortaleza de Imola. Uma terceira recusa fez com que fosse transferido para a fortaleza em Lugo em 16 de maio de 1813. Em seguida a uma quarta recusa em 10 de dezembro de 1813 ele foi sentenciado ao exílio na Córsega Enquanto esperava o transporte em Florença ele recebeu um convite para se juntar aos “Trabalhadores Evangélicos” ,grupo de padres que fazia um trabalho missionário. Embora seja questionável se Gaspar na época poderia ser de alguma ajuda, ele entusiasticamente entrou para o movimento. Menos de um mês mais tarde Murat restaurou a liberdade a todos os padres

Assim em fevereiro de 1815 retornou aroma após 4 anos de cativeiro. Ele ajudou a formar os Missionários da Precioso Sangue em 1815 em Giano, Soleto, Itália, uma congregação dedicada a trazer os sacramentos de volta a Itália (destruída pela guerra) sob o patrocínio de São Francisco Xavier. Muitos se opunham ao seu trabalho, mas o Papa Pio VII após conversar com ele pessoalmente aprovou seu trabalho. Em 1821 Papa Pio VII designou Gaspar para libertar as províncias dos bandidos e a fundar 6 missões na área. Gaspar ficou os próximos 5 anos no púlpito. Em fevereiro de 1826 ele foi indicado como Nuncio Papa no Brasil .Gaspar pediu para ser dispensado, para continuar a pregar, mas foi forçado a ficar 8 meses nessa nova função. Ele voltou a sua Congregação na Casa Mãe em San Felice em outubro e voltou a pregar nas Casas Missionarias nos próximos 10 anos. Vários milagres foram creditados a ele, inclusive a cura de doentes apenas com sua benção e oração. Ele próprio cuidava dos doentes na peste de 1830 (cólera ). Acabou contraindo a terrível doença e veio a falecer em 28 de dezembro de 1837.

Foi enterrado em Santa Maria em Trivio. Beatificado em agosto de 1904 pelo Papa Pio X e canonizado em 12 de junho de 1954 pelo Papa Pio XII . Sua festa é celebrada no dia 2 de janeiro.

O mês dedicado ao Preciosíssimo Sangue de Jesus

O mês de julho foi estabelecido pela Igreja como o mês dedicado ao Preciosíssimo Sangue de Jesus. A piedade cristã sempre manifestou, através dos séculos, especial devoção ao Sangue de Cristo derramado para a remissão dos pecados de todo o gênero humano, por ocasião da Paixão e Morte de Jesus e atravessando a história até hoje com Sua presença real no Sacramento da Eucaristia.

Desde tempos muito remotos, a devoção ao Preciosíssimo Sangue de Jesus sempre esteve presente e floresceu cada vez mais em meio ao clero e aos fiéis, através de solenidades, preces públicas e Ladainha própria, com o fim de pedir a Deus perdão dos pecados, afastar os fiéis dos justos castigos, implorar as bênçãos do céu sobre os frutos da terra, e prover nossas necessidades espirituais e temporais.

No século passado, foi São Gaspar de Búfalo admirável propagador desta insigne devoção, tendo o merecimento da aprovação da Santa Sé e por isto até hoje é conhecido como o "Apóstolo do Preciosíssimo Sangue". Foi por ordem do Papa Bento XIV que foram compostos a missa e o ofício em honra ao Sangue de Jesus para finalmente ser estendida à Igreja Universal por decreto do Papa Pio IX.

O Papa João XXIII, cuja família desde a sua infância foi fiel devota ao Preciosíssimo Sangue, também perpetrou esta santa devoção, tendo logo no início de seu pontificado escrito a Carta Apostólica Inde a Primis, a fim de promover o seu culto, conforme fez menção o Papa João Paulo II em sua Carta Apostólica Angelus Domini, onde frisa o convite de João XXIII sobre o valor infinito daquele sangue, do qual "uma só gota pode salvar o mundo inteiro de qualquer culpa" .

Sejamos, portanto, também devotos propagadores desta extraordinária e salutar prática da piedade cristã.